quarta-feira, abril 16, 2014

Permanência

Ninguém devia entrar assim na vida de alguém e não poder ficar. Quem entra na vida de alguém e a transforma de tal maneira que a pessoa já não se reconhece a si própria devia permanecer para sempre. É como se assinasse um contrato. Como se aquela vida que transformou fosse uma responsabilidade sua.
Quando alguém entra na vida de outra pessoa como se fosse um amigo de longa data mesmo que seja a primeira vez que se encontram, devia permanecer para sempre. Quando duas pessoas se sentem tão bem na presença uma da outra, quando parece que se conhecem há anos quando apenas se conhecem há dias, quando o tempo passa sem que se dê por isso sempre que estão juntas, deviam permanecer para sempre.
Tu devias permanecer para sempre na minha vida. Aliás, tu já estás na minha vida. Porque já me transformaste, porque já assinaste o contrato. A partir daquele momento (que eu nem sei bem precisar qual foi) em que entraste, em que foste entrando, devagarinho, assumiste, mesmo sem querer, a responsabilidade da minha transformação. Talvez não possas ficar, mas o facto é que já cá estás. Mesmo que um dia deixes de estar, irás sempre permanecer.

sábado, março 15, 2014

Borboletas II

O facto de nos fixarmos numa coisa e tudo à nossa volta ficar em câmara lenta traz um inconveniente: perdemos a noção da perspectiva e o que nos rodeia, mesmo em câmara lenta, perde a nitidez. E o que está a passar ao nosso lado, lentamente, pode ser algo espectacular que nos vai escapar se não formos capazes de nos desligar da nossa fixação e não nos fixarmos no que nos rodeia.
A "platonicidade" pode ser engraçada e fazer-nos sentir a flutuar mas não se compara, nem nunca se comparará, ao sentimento de reciprocidade. A "platonicidade" pode fazer-nos sentir que tudo à nossa volta está em câmara lenta mas a reciprocidade faz desaparecer o que nos rodeia, tira-nos verdadeiramente o sono e o apetite, põe-nos um sorriso parvo e constante nos lábios, faz-nos sentir leves. 
Existe a probabilidade de a reciprocidade ser platónica mas essa dúvida, apesar de ser incómoda, traz algum encanto à situação. A dúvida sobre a reciprocidade pode baralhar-nos, levar-nos a questionar coisas que, por vezes, são evidentes mas que não conseguimos aceitar como tal porque, precisamente, temos dúvidas. Revemos a situação milhares de vezes, analisamo-la de diversos ângulos, e mesmo quando as evidências apontam para a reciprocidade, pomos mais uns quantos "mas" pelo meio e continuamos na dúvida.

Mas mesmo com a dúvida pelo meio, a reciprocidade é mil vezes melhor que a "platonicidade". Porque quando dois olhares se encontram e se demoram um no outro, uma e outra e outra vez, tudo à nossa volta não fica em câmara lenta; simplesmente, tudo o que está fora dessa troca de olhares deixa de existir; os sons não ficam abafados, os sons desaparecem e só conseguimos ouvir o esvoaçar de milhares de borboletas nas nossas entranhas. É nesse momento que a dúvida surge, "é casual?, aconteceu?, está alguma coisa interessante atrás de mim?". E quando os olhares se encontram de novo a dúvida dissipa-se, mesmo que temporariamente. E as borboletas nas entranhas ficam ainda mais alvoraçadas. 
A reciprocidade, mesmo que duvidosa, não faz falhar batimentos cardíacos nem torna o ar rarefeito; faz sim o coração bater desalmadamente e ritmadamente, faz-nos respirar fundo e dá-nos vontade de rir, aquele riso nervoso e miudinho, sem qualquer motivo, mas que nos faz sentir tão bem.
A reciprocidade adormece e acorda connosco; faz-nos reviver mil vezes a situação e mil vezes sentimos as borboletas esvoaçar, o bater ritmado do coração e uma vontade de rir difícil de controlar.
A reciprocidade tolda-nos um pouco o discernimento, embota a escrita, torna o pensamento menos fluido porque a nossa mente está presa naquele momento, naquele preciso momento em que tudo o que está fora dos dois olhares que se encontram desaparece. Faz-nos ficar a olhar para o vazio, com um sorriso nos lábios e um calorzinho bom a espalhar-se dentro do nosso peito. 
Mesmo com dúvida, a reciprocidade dá-nos a certeza de que sabem que nós existimos, dá-nos a certeza que nós sabemos que existimos. Faz-nos sentir vivos, alvoraçados, como se nós próprios fôssemos borboletas nas entranhas de alguém. 




domingo, março 09, 2014

Borboletas

Odeio a forma como me fazes sentir. Odiar talvez seja um verbo muito forte; reformulo - tenho pena que me faças sentir da forma como me sinto quando me lembro que existes. Não porque não goste de ti; antes pelo contrário, tenho pena que me faças sentir da forma como me sinto quando me lembro que existes precisamente porque gosto de ti.
Não posso dizer que te amo porque nem sequer te conheço. Talvez esteja apaixonada porque quando alguma coisa me lembra que tu existes parece que me falta o chão debaixo dos pés, que o ar fica rarefeito e que, por momentos, o meu coração falha um batimento. Mas a paixão é algo mais forte do que a forma como eu me sinto quando me lembro que tu existes. E, estando apaixonada, não seria por ti, mas sim pela imagem que eu construí de ti, que nem sei se é verdadeira. Quando me lembro que existes sinto-me arrebatada. É isso, estou arrebatada por ti.
Quando alguma coisa me lembra que tu existes sinto-me arrebatada e com pena. Com pena de não ter sabido da tua existência noutro tempo, noutro contexto. Com pena de termos tanto em comum e nem nos conhecermos. Com pena que tenhas um papel tão importante na minha vida e nunca o venhas a saber.
Tenho pena que, quando te vejo, tudo à minha volta pareça ficar em câmara lenta, que os sons fiquem abafados e que os meus olhos não consigam fazer mais nada a não ser seguir-te. E depois tu desapareces e tudo volta ao normal excepto eu. Eu fico arrebatada, com pena de não te conhecer. Com pena de quase ser tua e tu nem saberes quem eu sou.
Tenho pena de não perceber como podes arrebatar-me desta forma, há tanto tempo, sempre com a mesma intensidade; pensei que, com o tempo, a força do arrebatamento fosse diminuindo mas enganei-me. Posso passar dias sem me lembrar que existes mas sempre que me lembro fico tão arrebatada como da primeira vez que me arrebataste. Nesse dia, os sons não ficaram abafados, a tua voz era a única coisa que se ouvia e, nas minhas entranhas, milhares de borboletas esvoaçavam e eu senti-me tonta, nervosa, com vontade de rir mas sem o poder fazer. Nessa noite quase não dormi, as borboletas não deixaram. Ultimamente, as borboletas estão mais calmas ou então já me habituei ao seu esvoaçar e não me parece tão forte. Agora o arrebatamento, esse continua igual.
Toda a pena que sinto reside na "platonicidade" deste arrebatamento. Porque sinto que se tudo isto não fosse platónico nos íamos dar muito bem. Se eu te conhecesse e tu me conhecesses, talvez até fossemos felizes para sempre, quem sabe.
Tenho esperança que um dia as borboletas se fartem das minhas entranhas e esvoacem para longe; que, quando me lembrar que tu existes, não me falte o ar ou um batimento cardíaco; que quando te vir tudo à volta não fique em câmara lenta e que os meus olhos consigam seguir outra coisa que não tu. Não quer dizer que deixei de gostar de ti. Quer dizer que deixei de ser arrebatada por ti.


terça-feira, dezembro 31, 2013

2014




O último dia do ano é, por norma, um dia de reflexão. Pensa-se nos 365 dias anteriores, no que fizemos, no que podíamos ter feito, enfim, faz-se o balanço. Para mim, o ano de 2013 teve balanço positivo. Conheci pessoas que fizeram a diferença na minha vida, estreitei laços com outras que já conhecia, aprendi a aceitar-me e a aceitar os outros. Passei por situações pelas quais que nunca pensei que passaria e sobrevivi à tormenta, fortaleci laços familiares, perdi pessoas e encontrei pessoas. Conheci lugares novos e revisitei outros.
Não foi um ano fácil mas a adversidade serve para nos ajudar a crescer. Chorei, ri, sorri, amuei. Aprendi que o sofrimento suporta-se melhor se for partilhado. E aprendi que há tipos de sofrimento que não têm alívio possível.
Apesar de tudo, 2013 foi um bom ano. Principalmente porque sinto que se fecha um ciclo e que se vai iniciar outro; porque é o último dia deste ano e eu sinto esperança no ano que aí vem. Talvez por isso me sinta tão nostálgica.
2014 é um caderno em branco. Tudo pode acontecer. 

quarta-feira, outubro 30, 2013

Aquilo que não nos mata fortalece-nos

"You never know how strong you are untill being strong is the only choice you have". Um desconhecido escreveu esta frase. Eu adoptei-a como legenda das últimas semanas.
De facto, o ser humano tem uma capacidade de adaptação à adversidade que não pára de me surpreender. Eu não paro de me surpreender, cada dia que passa conheço uma nova pessoa que habita sob a minha pele. E cada dia que passa conheço outras pessoas que habitam sob outras peles que eu julgava conhecer.
Nunca tinha lidado com a probabilidade da morte "fora de tempo" (como se houvesse um tempo próprio para morrer...), apesar de ter perdido a minha mãe quando ainda era criança. Na altura foi como um filme em câmara lenta, algo que eu estava a viver mas que ao mesmo tempo via de fora, como se não fizesse parte dele, como se nada daquilo tivesse a ver comigo. Nas últimas três semanas tenho vivido dentro de um filme semelhante mas agora tenho noção que faço parte dele. E tenho vivido a situação como é normal, como a teria vivido há 25 anos atrás, se não fosse uma criança. Já me revoltei, já senti raiva e ira; já senti desespero, tristeza, abandono, já chorei rios, mares de lágrimas. Já aceitei que tenho que aceitar o que vier, seja o esperado ou o inesperado.
De há uns anos para cá tenho noção que as coisas más nunca são tão más como as imaginamos; são más mas a mente humana tem o condão se as fazer parecer piores do que são. Mais uma vez confirmou-se essa minha percepção. Nunca me imaginei numa sala de espera de uma Unidade de Cuidados Intensivos, mãos suadas, incapaz de me manter sentada, incapaz de entrar na enfermaria, ansiosamente à espera que alguém viesse lá de dentro para me trazer notícias, fossem elas quais fossem. Por muitos parâmetros bioquímicos e hematológicos, gasimetrias e pesquisas de microorganismos a que eu tenha acesso, nada iguala a presença junto da pessoa no que toca avaliar o real estado da mesma. Eu tinha acesso aos valores numéricos, não conseguia nem queria ter acesso à pessoa. Imaginar-me entrar numa sala com pessoas que apenas estão vivas porque estão ligadas a máquinas que respiram por elas, que filtram o sangue por elas, fazia-me confusão; na minha cabeça era um cenário dantesco, imaginava monitores cardíacos a apitarem, enfermeiros e médicos a correrem de um lado para o outro, empenhados em não deixar aquelas pessoas morrer, achei que não iria sobreviver a uma experiência daquelas e imaginava sempre que ia sofrer uma síncope e acabar numa daquelas camas, ao lado da pessoa que fosse visitar. Por isso, quando me vi no papel de visita numa UCI, refugiei-me na minha cobardia, apoiei-me na minha prima e deixei que ela fosse sozinha "para a guerra". E ela lá ia, entrava na sala de desinfecção, vestia a bata a verde, eu sempre a ver, a torcer as mãos, a desejar não ser tão cobarde e conseguir entrar também. Mas o meu instinto de sobrevivência era mais forte, e ficava sempre cá fora; olhava pelo vidro fosco de uma das portas por onde se vislumbrava o contorno de uma cama e imaginava que era ali que estava a minha tia. Ficava a ouvir os sons dos monitores cardíacos, aqueles apitos ritmados que não sabia bem o que queriam dizer. Quase que encostava o nariz ao vidro, como uma criança que espreita uma montra cheia de brinquedos, desejando que um deles seja a sua prenda de Natal. E passados uns minutos, que me pareciam horas, a minha prima saía com notícias, umas vezes melhores que outras.
Ninguém sabe bem o que sente ou de que se apercebe uma pessoa em estado crítico, mas o certo é que pareceu haver uma evolução positiva a partir do dia em que a minha tia se apercebeu que a minha prima estava ao pé dela; e a minha cobardia continuava a roer-me as entranhas, não consigo entrar, não quero entrar, mas se calhar se entrar posso ser mais uma pessoa a ajudar alguém que está a lutar pela vida a agarrar-se mais a ela. E uma semana depois da entrada da minha tia na UCI, expulsei a cobardia que havia em mim (com a ajuda preciosa da minha prima e do pessoal da Unidade) e também eu entrei na sala de desinfecção e vesti a bata verde. Percorri o corredor até à enfermaria encostada à parede, pernas pesadas, olhos cheios de lágrimas, a pensar que aquilo não era nada como na "Anatomia de Grey", mãos suadas e coração na boca. Fiquei ao longe, não conseguia aproximar-me da cama; a minha prima aproximou-se da cama com naturalidade, para ela já era uma rotina há uma semana e eu fiquei ao longe, sem saber o que fazer. Fui-me aproximando cautelosamente, enfermeiros e auxiliares ao meu lado até que consegui olhar. E não foi tão terrível como eu imaginei enquanto esperava do lado de lá da porta com vidro fosco. Foi duro, foi sofrido mas ver a expressão dela quando me viu compensou todo o mal estar que se apoderava de mim. A pessoa que estava ali, agarrada à vida por um ventilador e uma máquina de diálise não era uma pessoa qualquer, era alguém do meu sangue. E isso custa, custa muito. Mas o facto de estar ali junto a ela aliviou-me, matou o monstro da UCI na minha cabeça. Não ficou mais fácil, nunca é mais fácil, mas tornou-se menos difícil. Apesar dos dramas que ali se vivem, é um ambiente estranhamente calmo.
Agora a minha rotina também é essa, agora também entro na UCI com (alguma) naturalidade, o monstro foi derrotado e os benefícios compensam largamente os incómodos. A melhoria tem sido notória, seja pela evolução clínica natural seja pela âncora que lhe deitámos quando lhe tocámos e a fizemos sentir que havia alguém deste lado à espera dela. Houve percalços, há sempre percalços numa UCI, mas não pode é haver desistências. Mesmo quando as forças falham, há sempre uma recarga extra que vamos buscar não sei bem onde.
Chorei muito depois de algumas visitas, senti que não tinha mais força para lhe dar força, mas se ela se está a aguentar eu não o direito de desistir. E continuo a ir, mesmo quando tenho medo do que vou encontrar.
De facto, não sabemos quão forte somos até nos apercebermos que ter força é a nossa única alternativa. Todos os dias descubro mais um pouco de força dentro de mim. Todos os dias desespero um pouco e fortaleço um pouco. Todos os dias cresço mais um pouco. Todos os dias me surpreendo a mim própria. Todos os dias aprendo a viver um dia de cada vez, a ter paciência, a ter esperança.
Não há qualquer dúvida, aquilo que não nos mata fortalece-nos.


segunda-feira, junho 03, 2013

Finalmente a luz!

Inspirada pelo blogue de uma grande amiga que está muito longe fisicamente mas sempre perto do meu coração, e que já está na minha lista de blogues recomendados (http://deumepara-isto.blogspot.com/), resolvi vir até aqui dar o "ar da minha graça".
Sei que tenho estado afastada da escrita e que tenho deixado este meu cantinho ao abandono, tanto que está cheio de ervas daninhas, que prontamente irei mondar virtualmente. Passei uma fase de estagnação, de falta de criatividade; agora percebo que precisava desse afastamento, desta inércia, para me "encontrar de novo".
Talvez ainda precise de desenferrujar um pouco, que isto da escrita é um hábito que depressa se perde se não se cultiva, mas prometo que virei mais amiúde a este cantinho, de preferência sem lamentações deprimentes, porque disso está toda a gente farta.
É um novo começo.

quinta-feira, setembro 13, 2012

"Enough is enough"

"O Grito",  Edvard Munch
Já lá vai um tempinho desde que escrevi o meu último post mas hoje senti uma necessidade enorme de escrever. Inspirada por uma entrada no facebook de uma rapariga que não conheço mas cujo texto anda a circular pelos perfis dos meus amigos "facebookianos", senti uma vontade imensa de também dar asas à minha indignação.
Olho para a minha vida e, se há uns anos eu podia dizer que tinha uma vida desafogada, agora posso dizer que assisti a um retrocesso. Obviamente que não passo fome nem necessidades de espécie alguma, mas com o passar do tempo uma pessoa costuma melhorar de vida, é suposto evoluir, não? Pois eu, de há uns anos para cá, vejo a minha vida piorar. Vejo os subsídios de natal e férias desaparecerem, vejo o meu ordenado ser reduzido, as minhas obrigações fiscais a aumentarem assim como a água, luz, gás, gasolina. Há 8 anos eu dizia "ganho bem", neste momento digo "dá para me remediar". Não deveria ser ao contrário?
A única vez que participei numa manifestação foi há 20 anos, contra a já extinta Prova Geral de Acesso ao ensino superior. Na altura não me afectava directamente, eu andava no 8º ano, mas sempre era mais uma para "fazer número". Segurei nas faixas que os alunos finalistas fizeram e corria pela Avenida da Liberdade a fugir à polícia, que tentava dispersar os manifestantes para que os carros pudessem voltar a circular.
No sábado, passados estes anos todos, vou voltar a participar. Sim, desta vez vou sair para a rua e gritar basta!, que já chega de serem sempre os mesmos a pagar, que já chega de roubar aos pobres para dar ao ricos. Porque desta vez, ao contrário de há 20 anos atrás, toca-me a mim, porque desta vez eu sinto na pele a razão pela qual tenho que gritar. E não vou só por mim! Vou por todos aqueles que vivem na miséria à custa do "fartar vilanagem" em que os nossos governantes têm vivido, mandato atrás de mandato. Vou por todos aqueles que, tal como a minha família, nunca viveram acima das suas possibilidades mas estão a pagar como se o tivessem feito. Estão a dar cabo do nosso país e nós não podemos assistir impávidos a este estrangular da nossa economia, do nosso estado social (qual estado social?), à constante deterioração das condições de trabalho (e sortudos daqueles que o têm!). Não podemos aceitar este castigo sem nada fazer, sem reclamar. Temos que gritar "Basta!"
Sei que de nada irá servir, o "nosso" (meu por imposição) PM  já veio dizer que não recua em nenhuma das decisões tomadas; mas pelo menos limpo a alma e indigno-me juntamente com milhares de outras pessoas, e pode ser que esta indignação faça acontecer alguma coisa, boa ou má. Estou cansada de me indignar em silêncio, desta vez quero gritar. Desta vez quero mesmo mostrar a minha indignação. Não posso deixar que me "vão ao bolso", que me tirem o dinheiro que eu ganho honestamente e nada dizer.
Costumo dizer isto muitas vezes, cada vez com mais convicção: os Maias é que a sabiam toda. Diziam que o mundo, tal como o conhecemos, acaba a 21 de Dezembro de 2012. Cada vez mais acredito que é verdade. Não digo que vai haver uma catástrofe natural que acabe com a vida na Terra, mas acho que vai haver uma grande mudança. Tem que haver. Porque assim não dá para continuar. Já chega. Ou vai ou racha.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Crappy valentine's day!!

Ora aí está outra vez o dia 14 de Fevereiro. Um dia enervante, pintado de rosa e vermelho (duas cores que, a meu ver, não combinam) e de amor meloso que escorre pelas ruas. Não tenho nada contra o amor, nada mesmo, mas confesso que me enervam um pouco os rituais deste dia: as filas à porta dos restaurantes, cujas mesas estão preparadas para 2 pessoas (o que torna difícil um grupo de amigos ir jantar fora nesse dia) e o olhar apaixonado dos casais sentados no restaurante, que provavelmente não olharam verdadeiramente um para o outro nos últimos tempos.
Como já referi num post anterior, acho que as manifestações de carinho devem ser espontâneas e  inesperadas; de certeza que há membros de um casal que passam o dia dos Namorados à espera de manifestações de carinho inesperadas. Esta frase é uma contradição, "à espera de manifestações de carinho inesperadas"... Mas muitas vezes é o que acontece. Por isso não gosto do Dia dos Namorados, para mim é um dia hipócrita. Se algum dia eu o passar com a minha cara-metade, não vou comemorar este dia porque todos os dias serão de manifestação de carinho (que bUnitooooo!!), porque simplesmente não acredito nele. O amor deve ser celebrado sempre, não em dias marcados.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Recauchutagem da alma

Estou de novo com o pé ao peito (dois pés, dois joanetes... sim, os meus pés são irmãos gémeos) e por isso tenho tempo de sobra e pouco para fazer com ele. Não andei a ouvir Rob Zombie mas sim a arrumar as "caixas" no meu "sotão", a separar o que tem importância do que tem importância relativa (que são duas coisas bem diferentes) e posso dizer que estou "renovada", é como se tivesse feito uma espécie de "recauchutagem" da alma. 
Confesso que ainda estou enferrujada na escrita; apetece-me escrever mas, ou não sei bem sobre quê ou se sei, não sei como iniciar a abordagem do tema. Talvez a culpa seja dos 8 dias consecutivos a usar calças de "andar-por-casa" e polares, sem saber o que é respirar ar puro, a não ser os escassos minutos em que ponho a cara fora da janela e inspiro com força. Isto tolda-me o espírito. Mas melhores dias virão. 

sexta-feira, agosto 26, 2011

Retiro por tempo indeterminado

Tenho medo de me estar a tornar numa pessoa amarga. Quando olho para o título do blogue e para tudo o que já escrevi chego à conclusão que é bem mais "darkness" que "wonder". E confesso que isto me começa a assustar.
Começo a não ter paciência para determinadas coisas, começo a ver que há sítios onde antes me encaixava e agora já não me encaixo. Começo a sentir-me sozinha mesmo estando rodeada de muita gente, e tenho medo que a minha amargura esteja a "vir ao de cima" e a afastar as pessoas de mim. Talvez não de uma forma física mas de uma forma emocional.
Sinto-me triste, desenquadrada, sem saber muito bem onde me devo encaixar. Penso em tudo o que tentei conquistar e não consegui; antes não me incomodava por aí além mas agora incomoda-me, pesa-me como se trouxesse o Mundo às costas. Sinto-me revoltada por me ver negadas coisas que parecem tão fáceis de obter para outras pessoas, como iniciar a minha própria família ou ter alguém com quem ir de férias ou a um concerto a que me apeteça assistir.
Olho para os filhos dos meus amigos e sinto uma ternura imensa por eles, e ao mesmo tempo uma pena enorme.
Olho para os amigos de longa data que se afastam cada vez mais por vicissitudes da vida e pergunto-me onde anda aquele sentimento de amizade incondicional, aquele "amor sem sexo" que vale tanto nos tempos de liceu. Óbvio que os tempos de liceu já lá vão, e de facto essa cumplicidade é naturalmente transferida para um/a companheiro/a, que passa a ser o nosso amigo incondicional que nos acompanha a todo o lado. Mas e quem não o tem? Continua a procurar os amigos do liceu mas apercebe-se que já não é a mesma coisa.
Sinto-me cheia de mágoas e coisas más que me magoam as entranhas e me fazem ter dificuldade em respirar; dói-me a garganta, parece que tenho uma garra que me aperta, durmo mal e sonho imenso, sonhos assustadores e estranhos e chego à conclusão que algo está errado comigo.
Não queria que este cantinho se transformasse num "muro das lamentações" mas de facto não consigo escrever sobre coisas alegres e felizes. Por isso vou fazer um retiro por tempo indeterminado. Talvez volte ou talvez não. Se não voltar, a todos os que me foram acompanhando nestes relatos, bem hajam.

quinta-feira, julho 07, 2011

Podia ter sido eu a escrever esta frase mas não fui

" Aprendi que grandes amigos podem tornar-se grandes desconhecidos. Que grandes desconhecidos podem tornar-se os nossos melhores amigos. Que nunca terminamos de conhecer uma pessoa. Que o "nunca mais" acontece e que o "para sempre" acaba. Que quem quer pode e consegue. Que o que não arrisca, não perde nada. Que o físico atrai, mas a personalidade apaixona!!! "

Não sei quem escreveu esta frase mas pela parte que me toca, até podia ter sido eu! Já me desiludi com grande amigos, já me surpreendi pela positiva com desconhecidos, já fui surpreendida pela negativa por alguém que julgava conhecer. Já comecei frases por "nunca mais" e acabei por fazer exactamente aquilo que prometi não mais fazer, já vivi alguns "para sempre" que acabaram. Acredito que quem quer pode e consegue, acredito que quem arrisca pode perder muito mas pode ganhar ainda mais. E sem dúvida que já me senti atraída pelo físico e me apaixonei ainda mais pela personalidade. Só assim se justifica as saudades que sinto (senti) de algumas pessoas.

sábado, maio 21, 2011

Copo meio vazio

E pronto, mais um sonho que fica arrumado a um canto. A medicina junta-se ao doutoramento, ao trabalhar na investigação, ao marido e aos filhos, sem falar dos irmãos. Olho para esse canto e dou por mim a pensar: "mas é para isto que estou guardada?"
Analisando a minha vida posso dizer que sonhos concretizados são poucos mas tentativas de os concretizar, muitas! E isso dá-me alguma paz de espírito. Obviamente que realizei alguns sonhos, mas neste momento estou na fase "copo meio vazio", só vejo o que não consegui concretizar.
Neste momento acho que a insatisfação própria do ser humano é uma porcaria, e que ser acomodado é que é fixe, pelo menos uma pessoa não se chateia nem se desilude. Confesso que começo a ficar farta de desilusões, farta de perseguir sonhos e não os conseguir realizar, por isso acho que vou deixar de tentar. Estou cansada. Tenho mesmo que gostar daquilo que tenho em vez de ter aquilo de que gosto, é para isso que estou guardada.
O que vale é que acredito na reencarnação, e sei que na próxima vida vou conseguir estas coisas todas, o que irá fazer de mim alguém muito cansado mas muito feliz. Isto se não reencarnar numa minhoca e passar a vida a escavar túneis na terra molhada.

quinta-feira, abril 28, 2011

Amizade

 Imagem: kimcats
Quando era adolescente dizia muitas vezes, normalmente depois de uma das muitas "discussões" que temos com os nossos amigos na adolescência, "a amizade não se nega a ninguém". Numa época em que os amigos são tudo e os pais apenas "servem" para nos alimentar e dar dinheiro, ai deles que se intrometessem na nossa vida, quando se iniciava uma amizade era para sempre. Quando havia um conflito, a maior parte das vezes por coisas insignificantes agora, mas de importância extrema na altura, ambas as partes queriam ser detentoras da razão e era difícil chegar a um consenso. Passada essa fase, começavam as tentativas de aproximação de forma subtil, ninguém queria dar o braço a torcer, mas a amizade é tão importante na adolescência que rapidamente o orgulho era deixado de lado e tudo voltava a ser como antes. Essa era a grande vantagem das zangas de amigos na adolescência, não se guardava rancor.
Como Aquariana que sou, gosto de ter os meus momentos de solidão, sabem-me bem, mas não consigo estar muito tempo sem ver os amigos. Uma ida ao café, uma noite na discoteca, uma semana na praia, nada disto tem piada sem os amigos. E por isso eu dou tanta importância aos amigos, é preciso tentar sempre não "fechar portas" quando surgem conflitos, agora muito mais difíceis de resolver do que na adolescência. Quando uma amizade vale a pena há que lutar por ela. Mas quando é que sabemos que uma amizade vale a pena? Como separar o trigo do joio, que é como quem diz, saber distinguir o que é amizade do que não é?
Outra coisa que era comum na adolescência era separar muito bem separado os amigos dos namorados, ou se é uma coisa ou se é outra. Agora é claro que a segunda não pode existir sem a primeira, mas a questão era outra: quando o namoro acabava, normalmente acabava a amizade. Melhor dito, quando o namoro começava, estava escrita a sentença de morte da amizade. Com o fim do namoro lá se ia a amizade. Com todas as provocações, falso desprezo e outras "provas de maturidade" tão típicas da adolescência.
Sempre achei mais suportável uma traição de namorado que de amigo, embora não saiba muito bem porquê. Um amigo é alguém nos completa, alguém que não nos pode desiludir, é a nossa alma-gémea, que sabe dizer a palavra certa no momento certo. De um namorado já se pode esperar mais qualquer coisa, a pessoa com quem estamos é a pessoa da nossa vida até aparecer outra; afinal de contas, não conhecemos todas as pessoas do Mundo.
É verdade que, muitas vezes, o fim de um relacionamento amoroso "mina" todas as amizades que surgiram entretanto (inclusive entre o próprio casal), e embora eu o consiga perceber, não acho muita piada. Claro que isso vai muito da forma como ambas as partes se vêm uma à outra, e muitas vezes é a única opção. Se uma das partes continuar a olhar para a outra como "ex-qualquer coisa" é possível que a amizade esmoreça e acabe por desaparecer. Por muito esforço que se faça para apagar a imagem do "ex" e mostrar que vale a pena lutar pela amizade. Porque até pode não resultar como namoro mas pode ser a amizade perfeita. Daquelas em que se sente vontade de estar com a pessoa só pelo prazer de desfrutar da companhia. Mas isso é impossível quando ainda paira no ar a imagem do "ex-qualquer coisa". E também quando se sente que a nossa presença não é desejada; também não será indesejada mas não é imprescindível, é uma espécie de "mal necessário". Acabamos por sentir falta da companhia, das conversas, do à-vontade. Acabamos por sentir que não soubemos separar o trigo do joio. De certa forma, acho que nos sentimos enganados, porque até tentámos preservar a amizade mas sem saber se essa era a vontade da outra parte.
Agora sei que não é verdade que a "amizade não se nega a ninguém"; o que é verdade é que a amizade não se pede, ou se sente ou não se sente. De facto, não vale a pena passar tempo com alguém que não está disposto a passá-lo connosco, mas continuo a achar que pode ter sido tempo gasto, mas nunca terá sido tempo perdido.

quarta-feira, abril 13, 2011

Perseverança: defeito ou qualidade?

Nestes tempos conturbados de crise e FMI e desemprego, começo a questionar-me se ser perseverante é uma qualidade ou um defeito.
Como disse no post anterior, sinto que há algo mais para mim e continuo a lutar e a procurar, embora não saiba muito bem qual é o alvo da minha busca. Sinto-me incompleta e talvez seja por isso que procuro sempre lutar por alguma coisa. É uma forma de me sentir "viva"; o sentimento de expectativa de algo faz-me correr uma espécie de adrenalina nas veias, mas uma adrenalina boa, que não me assusta nem me provoca pânico. É quase uma adrenalina calmante, por mais contraditório que possa parecer; é o sentir que estou a fazer algo por mim, que não me sento à espera que a vida me dê algo, que parto à luta pelas coisas. Sinto uma espécie de orgulho de mim própria.
A 3 dias de iniciar mais uma demanda por um sonho antigo (posso dizer " a iniciar mais uma vez", tendo em conta que é a 4ª vez que tento) começo a pensar se estarei a fazer a coisa certa. Quer dizer, eu sei que é uma coisa que eu quero desde sempre, mas agora eu estou um pouco diferente, já vivi outras coisas; a minha vida agora é muito diferente da vida que eu tinha quando tentei pela última vez entrar em Medicina, estava no 2º ano da Universidade, prestes a passar para o 3º, já lá vão 13 anos. Agora tenho outras responsabilidades, outra idade, mas o gosto e o sonho da Medicina continuam cá. Se calhar com outra calma e sem a urgência dos 20 anos. Mas ainda continuam por cá.
Nesse último ano que tentei entrar no curso de Medicina, e mais uma vez falhei, o meu pai disse-me "deixa lá filha, não está no teu karma". E essa frase tem-me passado pela cabeça muitas vezes nestas últimas semanas. Estarei a forçar uma coisa que não está destinada a ser? Será que deveria parar de lutar? Saber desistir é uma virtude...
Imagino como será se conseguir entrar. O momento em que vou saber o resultado. A minha reacção. A decisão nada fácil que vou ter que tomar, seguir o sonho ou escolher a segurança e o conforto. Claro que digo a toda a gente que tenho tempo para decidir (e tenho), que não vale a pena estar a morrer de véspera como o perú, que posso nem sequer chegar à fase final e posso nem sequer entrar, por isso não vale a pena estar a mortificar-me com decisões que nem sequer sei se vou ter que tomar. Mas minto se disser que não penso nisso de vez em quando, ultimamente cada vez mais. E minto também se não disser que me aquece o coração imaginar que finalmente consigo.
Tenho medo de não conseguir tomar uma decisão. Com a crise que vivemos, com o desemprego a aumentar, com os tempos difíceis que se avizinham, marcados por frases "quem tem emprego que o agarre bem!", tenho medo de não conseguir tomar uma decisão. Tenho medo de largar tudo e depois não ser capaz (porque agora eu tenho 33 anos, 11 passados a trabalhar num hospital e já sei o que me espera) e tenho medo de me acobardar e ficar para sempre a pensar " e se eu tivesse ido?". Sei que não quero ficar a trabalhar para sempre onde trabalho. Sei que quero fazer outras coisas, que a rotina está a matar-me aos poucos, que a desmotivação cresce todas as semanas. Sei que há algo mais para mim, que eu não posso estar guardada para isto, tem que haver mais.
Estas dúvidas que me assaltam fazem-me pensar que afinal, se calhar já não quero assim tanto ir para Medicina. Ou então é o peso das responsabilidades que assumi. E é por isto que não sei se faço bem em tentar uma 4ª vez. Porque estou a ter que lidar com a possibilidade de entrar e ter que tomar a decisão mais difícil da minha vida (até agora).
Sem dúvida que saber desistir é uma virtude. Mas como é que sabemos que chegou a hora de desistir? Começo a ficar confusa e a pensar demais nas coisas, tento racionalizar tudo quando sei perfeitamente que há coisas que não podem ser racionalizadas.
Sei que isto são os nervos que começam a dar sinal, apesar da minha aparente calma e descontracção estou a "fervilhar". Mas independentemente do resultado, sei que tenho que fazer isto. Para exorcizar este fantasma de uma vez por todas. Só espero ter maturidade suficiente para tomar uma decisão. Se a isso me vir obrigada.

segunda-feira, março 28, 2011

Epifania

Ontem tive uma epifania, que é como quem diz, vi a luz. Na minha cabeça soou o jingle publicitário do detergente Skip de há uns valente anos atrás:" Eureka! Achei! Um novo sistema encontrei!" Não que tenha propriamente descoberto a pólvora, mas finalmente consegui interiorizar o tal "comportamento repetitivo" que, segundo uma psicóloga minha amiga, constitui o meu karma. E, estranhamente, apercebi-me disso enquanto tentava encontrar técnicas de relaxamento para combater o medo de voar. Num dos sites que consultei lia-se "Seu medo pode ser resultado do fato de saber que você não está no controle da situação."; e fez-se luz! O meu comportamento repetitivo é baseado em "se queres uma coisa bem feita, fá-la tu". A minha preocupação incessante de lutar por aquilo que quero sem deixar que as coisas amadureçam, tudo leva o seu tempo; a minha inquietude em planear tudo ao pormenor e imaginar diferentes cenários para não ser apanhada de surpresa. Eu não deixo que sejam as outras pessoas a controlar a situação, mesmo que queira e que deva deixar que assim seja. Esse é o meu grande problema. E isso é mau. Muito mau. Porque leva-me a ter que "engolir sapos" porque não quero perder o controlo, tenho que sorrir e dizer que está tudo bem mesmo quando não está. Porque isso leva-me a que eu reprima aquilo que me incomoda, se não o fizer expludo e posso vir a perder a razão, o que leva a uma perda de controlo.  
Não gosto de confrontos directos, nunca gostei, mas sinto falta deles. Tento sempre controlar-me nas palavras, "palavra fora da boca é pedra fora da mão" e eu já levei umas quantas "pedradas verbais" e doeu. Talvez por isso tente escolher muito bem as palavras e o modo como as digo. Mas há situações em que não devia tentar controlar as emoções, pelo menos não totalmente. Se alguma coisa não agradar há que dizê-lo.
Ontem interiorizei que não ganho nada em "engolir sapos" quando a situação não me agrada. Não me vou tornar uma desbocada, há que ter algum tento nas palavras e escolhê-las consoante a situação, mas o controlo fica-se por aí. Se algo não me agrada tenho que dizê-lo; sempre o senti mas não o dizia imediatamente, ficava a remoer, a escolher as palavras "politicamente correctas" e só depois me manifestava. Serviu-me de grande coisa, serviu. Com isso só consegui ganhar "recalcamentos" e ansiedade e noites mal dormidas, com palavras por dizer entaladas na garganta. O que vale é que passa, mas até lá peno um pouco. 
Apercebi-me que é libertador dar uma boa resposta no momento certo, tentando não baixar o nível nem ofender as outras pessoas. Mas "levar desaforo" para casa é que não!
Fiquei contente por finalmente perceber qual é realmente o meu karma: não passa de um comportamento repetitivo de controlo excessivo. É infinitamente mais fácil combater o inimigo quando se sabe quem ele é.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Olhos e terras de cegos

imagem: proverbiospedra.blogspot.com
Numa época em que a banda sonora da minha geração é a música "Parva que sou" dos Deolinda (e independentemente de se gostar ou não da música, do grupo ou do estilo, a letra é a mais pura das verdades), o meu inconformismo vem novamente à tona.
Numa época em que é ver debandar jovens licenciados com grande potencial produtivo, em que há quem "dê o salto" daqui para fora, que o barco está quase a afundar, começo eu a pensar novamente na minha vida.
Numa época em que ter emprego é quase como ter olho em terra de cegos e em que ter uma casa é um luxo inalcançável para os jovens que iniciam agora a sua vida profissional, dou por mim a olhar para aquilo que tenho e a pensar "gosto daquilo que tenho mas não tenho aquilo que gostava de ter". O que é um problema grave, pois eu não sei muito bem o que quero. Sei que aquilo que tenho não é aquilo que quero. Não quero mais nem menos, quero diferente.
Vejo povos revoltados com os seus governos, vejo regimes totalitários caírem, vejo o mundo a mudar e tenho vontade de mudar também. Vontade essa que nunca me abandonou, apenas adormece de tempos a tempos. Vontade de fazer outras coisas, de ver outros sítios, outras gentes. Não apenas de passagem, mas viver esses sítios e essas pessoas por uns tempos. Talvez não para sempre, mas durante uns tempos.
Penso muito nisso, esse pensamento tem-me assaltado a mente, tanto que me faz acordar às 6h da manhã e não mais me deixa dormir, às voltas na minha cabeça. Porque quero muito mudar. Mas tenho medo... Claro que tenho medo, pois se tenho um olho em terra de cegos, como é que abdico desse "olho" em troca do incerto? Como é que numa época em que se vive de subsídios (quem os consegue), em que quem estudou durante anos acaba a trabalhar numa caixa de um hipermercado (quando consegue), em que quem quer o seu cantinho, o seu espaço tem que se sujeitar a juros elevadíssimos ou a arrendar um apartamento muitas vezes a cair de velho (quando os há), eu posso dizer que o meu "olho" não me basta?
Eu tento convencer-me que sou privilegiada, que tenho casa, saúde, emprego, nada me falta, tenho uma vida boa, e sei que tenho; mas quem é que cala esta voz de inconformismo dentro de mim? Quem é que sossega esta vontade de viver outras realidades, de seguir outros caminhos?  Eu não quero mais e mais e mais, não almejo ser milionária, nem ter uma casa com piscina. Não quero ter mais do que tenho, queria era ter algo diferente. E queria não ter medo.
Tenho tentado, sempre que aparece algo que me parece que eu gostasse de fazer, lá estou eu a tentar, a dizer timidamente "eu gostava de tentar"; mas quem depois me chama, com o meu currículo à frente, olha para mim como se eu fosse uma tolinha incapaz de dar valor à benesse que a vida me deu. E pergunta o que faço eu ali.
Isto desmoraliza uma pessoa, embora não me faça desistir. E eu continuo a tentar mudar e apanhar alguma coisa diferente, ao mesmo tempo que continuo a tentar convencer-me que tenho a vida ideal. Que tenho coisas que pessoas mais novas que eu se calhar nunca ou dificilmente irão ter, como casa própria e um emprego dito "estável". Mas não consigo calar a voz que, lá bem do fundo, me sussura que há algo mais para mim lá fora, fora desta terra de cegos onde eu, por ter olho, sou rei,

segunda-feira, fevereiro 14, 2011


Happy Valentine's Day. Not.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Retrospectivamente...

Olho para a coluna do lado esquerdo do blogue e apercebo-me que em 2010 escrevi menos de um terço dos posts de 2009. Claramente 2010 foi um ano pior em termos de escrita. Motivo? Passam-me vários pela cabeça mas não sei qual será o principal: preguiça, falta de inspiração, muito para dizer mas falta de organização de ideias. Não sei. O que sei é que escrevi muito menos que o ano passado. 2009 está em vantagem nesse campo.
Olho para trás, para 2010. Foi pior que 2009? Não posso dizer que tenha sido. Foi diferente, isso sem dúvida. Arranjei um cantinho para mim e habituei-me a estar sozinha; é preciso fazer esse exercício, nunca se sabe o que a vida nos reserva. Pelo sim pelo não há que estar preparado.
Trabalho? Tudo na mesma. Alguns projectos, que espero que dêem frutos em breve, mas "a bem dizer", tudo na mesma, como a lesma. Olhando para 2009, claramente um empate.
Amor? Como disse acima, há que aprender a estar sozinha. Não penso nisso. Não posso pensar nisso. Não quero pensar nisso. Consome-me e eu ainda sou muito nova para me consumir. (estranha contra-posição de ideias...) Neste campo, 2009 leva a melhor. Por uma unha negra, mas leva.
Viagens? Aqui sim, 2010 claramente em vantagem! Visitei Viena, uma cidade maravilhosa que adorei e que espero visitar novamente, desta vez com mais tempo. Regressei a Chamrousse, após 21 anos. Foi uma experiência memorável, há que dizê-lo, mas sem qualquer arrependimento. 2010 ganha em milhas aéreas. 
Festas? Claramente menos que em 2009. Os álbuns de fotografias com o sufixo "2010" são menos que com o sufixo "2009", talvez na mesma proporção que os posts neste blogue. Mas como se costuma dizer, "poucas mas boas".
Assim, feitas as contas temos: 2009 - 4; 2010 - 4. Resumindo, no geral 2010 não foi nem melhor nem pior que 2009.
Agora vem aí outro ano, e a "responsabilidade" de fazer dele um ano melhor que o anterior. Mas eu nem quero pensar nisso. Sinceramente, é mais do mesmo. Fazem-se milhentas listas de decisões e resoluções de Ano Novo: "vou deixar de fumar"; "vou fazer uma dieta a sério e perder aqueles 5 quilos que tenho a mais"; "vou ser mais empenhado no meu trabalho"; " vou ser uma pessoa melhor". Como dizem os ingleses, bullshit
A vida traz-nos surpresas, nem sempre agradáveis, que nós temos que "encaixar" na nossa vida. As melhores coisas acontecem sem que nós estejamos à espera, independentemente das resoluções que tomámos na "noite mágica" de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Talvez nos sintamos mais poderosos nessa noite, talvez pensemos que conseguimos dar a volta à nossa vida, talvez sejamos inundados de uma esperança avassaladora que nos faz sentir que dias melhores virão. 
Para mim, 2010 começou muito bem mas não foi um ano especialmente bom. Como vai terminar assim a modos que "periclitante" e, consequentemente, 2011 vai começar da mesma maneira (culpa do Barouk e das "maléficas" irmãs canadianas), tenho uma pequena esperança que este possa realmente ser um bom ano. Não que seja a noite de Passagem de Ano que vai ditar o rumo de 2011 mas vamos acreditar que possa influenciar. No meu caso, e retrospectivamente, em razão proporcionalmente inversa.
De qualquer maneira, que a esperança do Ano Novo nos inunde a todos e que 2011 seja (pelo menos) um pouco melhor que 2010.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Agora que tenho tempo livre (demais, diga-se de passagem) podia escrever mais. De facto já tentei iniciar três textos mas depois aquilo não me soa bem e amachuco a folha de papel, que é como quem diz, apago o rascunho.
A inércia é uma chatice porque traz mais inércia, e quanto menos faço menos me apetece fazer, embora eu deteste estar sem fazer nada. Isto é um pouco contraditório mas tendo em conta que já não saio de casa há quase uma semana, não apanho ar puro nem sol nem chuva, é normal que o meu raciocínio se encontre um pouco toldado.
Neste momento o meu pé esquerdo é o centro do meu mundo, e isso é triste. Tudo o que faço (ou melhor, que não faço) é em função do meu pé: levanto-me às 9h30m para tomar o antibiótico, porquê? Por causa do pé. Alguém me vem visitar, porquê? Por causa do pé. Apetecem-me pratos de que eu já não me lembrava, porquê? Por causa da "depressão" que o meu pé me inflige por não poder sair de casa. O meu pé é o meu mundo. Felizmente espero que não seja por muito tempo, tanto que o outro pé está a ficar ciumento e sobrecarregado; tem-me doído mais do que o habitual e tem razão, afinal está privado de sair e não tem culpa nenhuma. Também a vez dele chegará, temos que ser uns para os outros, e ele lá se vai aguentando.
Como estou fechada em casa não vivencio nenhum situação que mereça algum tipo de comentário ou reparo; o contacto com o mundo faço-o através de televisão, da net e de alguns amigos que vão aparecendo ou telefonando. No entanto, apetece-me escrever. Mas sem assunto é difícil. E com sono pior ainda. Vou dormir. Talvez amanhã corra melhor.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

De pé ao peito

E pronto, lá fui à faca. Não foi o drama que eu pensava que poderia ser, foi tudo muito calmo e controlado, o bloco operatório é apenas uma sala cheia de máquinas com um candeeiro que faz lembrar as colmeias.
Não gostei da anestesia geral, deu-me uma "moca" brutal que demorou horas a passar; pelos vistos a anestesia tem uma componente analgésica da famílias dos opiáceos e por isso estive quase 7 horas sem conseguir dizer nada de jeito, a saltitar entre o estado de vigília e um sono falso e desagradável. Se é isto a "moca" de heroína eu nunca me viciarei numa coisa dessas!
Agora passo os dias a saltar da cama para o sofá, do sofá para a cama, vejo televisão o dia todo (dou graças pela TV Cabo, havia de ser bonito gramar com as "Tardes da Júlia" o mês todo...) e dou uns passeios pela casa com as minhas novas amigas canadianas, a Sheila e a Nancy. São umas queridas, fazem-me companhia e apoiam-me imenso mas são pouco faladoras e também não comem nada de jeito. Feitios...