domingo, maio 24, 2009

A alma e o vento


A abertura de gavetas continua, embora a montagem de peças de mobiliário tenha abrandado um pouco.
Este pequeno caderno que folheio agora não tem uma única folha datada, mas pelos textos posso situar este algures entre 1993 e 1994 (xiiiii, sou mesmo muito antiga!). Escrever sempre me aliviou a alma e permitia-me viver situações que nunca poderia viver na realidade; a escrita transportava-me para outro mundo onde as coisas corriam sempre como eu queria. E sem dúvida que estes cadernos eram os meus melhores amigos, não desfazendo dos meus amigos de carne e osso, que também eram muito muito bons!

"Acho que sempre o amei. Agora tenho essa sensação. Desde pequenos que nos conhecemos e talvez estivesse destinado que nós nos uníssemos. A minha alma repousa, inquieta, completamente absorta em pensamentos estranhos. Mas em dias de vento, a minha alma acorda e liberta-se. Rodopia com ele, despenteia árvores, entranha-se no corpo de alguém e retira sabedoria. Quando o vento pára, ela volta a mim e utilizo a sabedoria que ela retirou.
Olho para ele de maneiras diferentes, como se fosse cada bocadinho das pessosas que a minha alma visitou a olhá-lo. Isso ajuda-me a compreendê-lo de muita maneiras. Mas continuo a não entendê-lo de outras.
Será que a alma dele não se liberta em dias de vento?
Um dia gostava que a minha alma o visitasse num dia de vento. Não saberia de imediato que fora a ele que visitara mas aconteceriam coisas que eu, mais tarde, compreenderia. Tento imaginar o que iria encontrar na alma dele. Bastante sofrimento, acho... Talvez, num dia de vento..."

Realmente é muito difícil tentar compreender um adolescente uma vez que, por definição, um adolescente não é para compreender. Mas eu não desisti, foram anos a tentar. Não consegui, mas a minha consciência ficou tranquila: ao menos tentei.

Ainda bem que não queimei os cadernos na lareira da minha casa...


(imagem: Alma e o Vento- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 30x40cm, coleção Taís Cortez, São Paulo, Brasil)

quinta-feira, maio 21, 2009

Eu sou o anjo da Anunciação!


Hoje aconteceu-me uma das coisas mais emotivas que alguma vez experienciei: dizer a um casal que vão ser pais. Foi uma coisa inexplicável, acabámos as duas a chorar no átrio do hospital enquanto o marido olhava para nós com um ar feliz. Imagino a cena vista pelas pessoas que passavam...
Realmente o choro de felicidade é a coisa mais contagiante que existe, pior que a gripe A ou a indiferença. A felicidade que aquela rapariga sentia era tão forte que eu própria a senti, como se fosse eu a receber a notícia. E mais uma vez senti pena que não estar em contacto com os utentes, pena de estar "escondida" no fundo de um laboratório perdido num (mais ou menos) imenso hospital.
Não consigo descrever a emoção que me invadiu quando ela se apercebeu que a notícia era a melhor que ela podia receber, era a que ela queria ouvir; a princípio não conseguiu interpretar os meus sinais, o meu sorriso era "neutro", como ela própria disse, não dava para um lado nem para o outro. Mas quando "encaixou" a notícia, a onda de emoção foi tão grande que não consegui ficar indiferente. E chorámos as duas de felicidade, perante o ar embevecido do marido; acho que nunca tinha chorado de felicidade, foi a primeira vez. E soube bem.
Diz ela que foi a melhor notícia que já recebeu até agora. E que eu era o seu "anjo da Anunciação" e que até vinha vestida de branco e tudo! Ainda agora, quando me lembro disso, me vêm lágrimas aos olhos.
Vem uma nova vida a caminho. E eu fui a mensageira. Eu sou o anjo da Anunciação. :)

terça-feira, maio 19, 2009

"Onde estás, meu menino?"


Falando em gavetas, este já é bem velho e está escrito num caderno, guardado dentro de uma caixa de cartão, que por sua vez está dentro de, claro está, uma gaveta! É daquelas coisas que se devem guardar porque ainda nos conseguem fazer sorrir, embora no passado nos tenham feito chorar. Coisa complicada, a adolescência...

"Onde estás, meu menino, homem da minha vida? Procuro-te e não te encontro. O corpo que antes habitavas está ocupado por outra pessoa. Quem é vivo sempre aparece... Mas tu não apareces...
Eu não quero acreditar que morreste, mas acho que é o que, de facto, aconteceu. Tenho saudades de ti, homem da minha vida, que desapareceste, que te tornaste névoa, poeira, pó, algo ido, talvez sonho.
Tenho saudades de te ver na janela; aquele que habita o teu corpo nem sequer lá vai... Tenho saudades de te sentir nos meus braços, de te beijar, de ser beijada por ti...
Mas quem morre não volta... e tu morreste. Porquê? Porquê?... Lembro-me dos teus olhos escuros, do teu sorriso terno, de tudo o que nunca mais vai voltar.
Só gostava de poder ter-me despedido de ti, dar-te um beijo sabendo que era o último, olhar-te sabendo que nunca mais o poderia fazer de novo...
Porque é que morreste, homem da minha vida? Porque é que te mataram, porque é que te levaram?
Olho para trás e vejo a nossa história, tão linda, tão feliz, tão pura... e num momento, num relâmpago, tudo fugiu. E olhei para ti. Mas já não te vi, estavas morto.
Ainda hoje, que já encontrei outra pessoa com que poderia construir outra história, olho para a tua fotografia e sinto que o meu amor por ti ainda não morreu, e que o teu amor por mim ainda existe, muito fraco, tentando viver debaixo de tanta infelicidade, sofrimento e desilusão.
Morreste... Mas eu não quero acreditar... Porque as pessoas que eu amo não morrem nunca..." (algures entre Fevereiro e Março de 1995)

Algumas ressalvas:

- ninguém morreu mesmo, é a minha veia metafórica a falar; isto não é defeito, é mesmo feitio.
- tinha 17 anos quando escrevi este texto.
- para mim o amor era sempre acompanhado de sofrimento; o Bocage, ao pé de mim, escrevia comédias.
- fui uma verdadeira adolescente, com crises existenciais e períodos de apatia, em que ficava deitada na cama a olhar para o tecto e a imaginar cenas dramáticas.
- sei que o rapaz de quem este texto fala nunca gostou de mim, pelo menos não da maneira que eu queria que ele gostasse, mas sempre quis acreditar que sim.
- sei que amei de paixão esse rapaz, mas hoje não tenho tanta certeza que ele é o homem da minha vida.
- apesar de todo o sofrimento por que possa ter passado, não me arrependo de nada do que vivi porque me senti viva!

P.S. - Ah, e na capa desse caderno tenho os nossos nomes escritos por ele. Vale a pena guardar estas coisas!
P.S.2- E também tenho as minhas notas de 11º ano! Matemática e Filosofia eram as minhas piores notas. Já não me lembrava disto.

domingo, maio 17, 2009

Gavetas...


Talvez porque agora ande muito entretida montar móveis, tenho dado comigo a pensar na problemática das gavetas. As gavetas servem para guardar coisas, tanto coisas que estão a uso como coisas que já não servem para nada mas que não conseguimos deitar fora. Existem também umas coisas muito úteis chamadas "amortecedores de gaveta" que impedem que a gaveta feche com muita força e faça barulho.
Há quem tenha dificuldades em fechar definitivamente uma gaveta; uma gaveta definitavemente fechada não serve para nada, deverá até deixar de ser chamada "gaveta" e passar a ser chamada "arquivo morto" ou coisa assim.
As coisas guardadas numa gaveta devem ser coisas que ainda têm préstimo, que podem e devem ser usadas. Se uma gaveta deixa de ser aberta, deixa de fazer sentido, e por isso, se as coisas que estão lá dentro deixam de ter préstimo, devem ser deitadas fora para dar oportunidade a novas coisas para ocuparem essa gaveta.
Uma gaveta só é completa se correr livremente pelas calhas onde está encaixada, abrindo e fechando para que as pessoas possam retirar do seu interior as coisas que precisam ou guardar dentro delas as coisas que já não usam mas que acarinham e que querem manter perto de si.
Fechar uma gaveta para sempre é um contrasenso, devemos é livrar-nos das tais velharias que não têm préstimo e que não queremos perto de nós; podemos deixar de abrir uma gaveta com tanta frequência, mas se o que está lá dentro ainda tem algum signficado para nós, de vez em quando até podemos abri-la e olhar lá para dentro. E se o que estiver no seu interior nos fizer sorrir mais uma vez, é porque ainda tem algum préstimo e aí faz sentido estar numa gaveta. Que não se deve fechar definitivamente. Mas se o que está na gaveta é inútil e não serve para nada, nem para fazer alguém sorrir, então mais vale deitar fora. Gaveta incluída.

quinta-feira, maio 07, 2009

É a pronúncia do Norte...


No fim de semana fui ao Porto. O meu conhecimento da "Inbicta" resumia-se à saída para a A3 em direcção a Famalicão ou Braga, ao estádio do Dragão (que se vê da A1) e às portagens.
Mas desta vez resolvi aventurar-me pelas ruas do Porto. Tendo em conta que apenas conhecia a zona do estádio do Dragão, foi esse o sítio escolhido para deixar o carro. Devo dizer que a esta altura já sei o caminho para lá de olhos fechados, já nem preciso do GPS; apesar da beleza do dito estádio (até se me revoltam as entranhas enquanto escrevo esta linha), e tive a oportunidade de o observar bem pois parei ao lado 3 dias consecutivos, não vou mudar as minhas preferências clubísticas. O FCP tem um estádio bonito mas fiquemo-nos por aí, nada de cachecóis azuis e brancos ao pescoço, ok?
Como estava a dizer, deixei o carro na Avenida dos Campeões Europeus (por amor da santa, que nome para uma rua...) e fui para o Metro, que, para minha surpresa, é mesmo um metropolitano. Sempre imaginei o Metro do Porto como uma espécie de eléctrico e foi uma agradável surpresa quando verifiquei que era um "Metro-Metro".
O almoço foi no Capa Negra do Campo Alegre onde enfardámos uma "berdadeira frâncesinha", com linguiça e picante. Até saímos de lá com um sotaque esquisito, carago!
Depois do almoço, que ficou bem pesado no estômago, apanhámos o Metro na Casa da Música (construção peculiar, aquela; ainda não sei se gosto ou não...) e fomos até aos Aliados, tomar um café no Guarani, onde paguei a módica quantia de 1,20€ por um café! Passámos pela rotunda da Boavista, que me ficou no coração pela sua magnífica estátua de um leão a "depenar" uma águia. Lindo!
Descemos a pé até à Ribeira, que ADOREI!! Quase que me meti num daqueles "cruzeiros" no rio Douro, mas não havia muito tempo. Ficará para uma próxima oportunidade. Daí seguimos até à rua de Santa Catarina, que estava apinhada de gente nas lojas, nas esplanadas, em todo o lado! Não fiquei para a noite, mas hão-de haver mais oportunidades.
Gostei mesmo da cidade, realmente o Norte tem um encanto que o Sul nunca há-de ter, não sei se pela simpatia das pessoas, pelo sotaque delicioso ou pelo orgulho que os portuenses têm na sua cidade. Se algum dia tivesse que escolher uma cidade para viver, o Porto estaria certamente entre as hipóteses a considerar! É a pronúncia do "nuorte", carago!

terça-feira, maio 05, 2009

Também gosto muito desta...

Pela melodia, pela letra, por ser Caetano. Só mesmo ele para escrever uma música assim. Que já tinha sido mencionada noutro post que escrevi em 2006. Há músicas que marcam uma vida.

quinta-feira, abril 23, 2009

A desilusão do falhanço ou em busca da ADSE perdida


Sou uma lutadora. Quem me conhece sabe que não sou de ficar à espera que as coisas me caiam no colo. Não é do meu feito, pronto.
Há umas semanas levantou-se a questão de ter ou não direito à ADSE, isto é, assistência na doença aos servidores civis do estado. Embora trabalhe para uma instituição pública não sou funcionária pública, não pertencendo portanto aos quadros do Estado. E pelo que consta no meu contrato, também não sou agente do Estado (seja lá o que isso for). No entanto, havia coisas na legislação que eu tive a coragem de consultar (ia dando em maluca com tanta lei, decreto-lei, artigos...) que, à luz da minha interpretação de leiga, me diziam que eu podia ter direito à ADSE, a saber: "Todos os trabalhadores que, nos termos dos artigos 1.º a 3.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro, exerçam funções públicas, independentemente da modalidade de constituição da sua relação jurídica de emprego público, e que não se encontrem abrangidos por qualquer outro subsistema de saúde integrado na Administração Pública.". Ora analisando a coisa, vejo que:

1º - sou trabalhadora (e muito!);
2º - exerço funções num organismo público;
3º - não estou abrangida por nenhum outro subsistema de saúde sem ser a Segurança Social.

Quando vi isto pensei logo que iria ter direito e, munida da papelada toda que reuni, lá me dirigi à secção de Recursos Humanos, disposta a provar por A+B que tinha direito à ADSE. Balde de àgua fria: é tudo verdade mas o hospital não é um organismo público, é uma empresa do Estado. Todas estas permissas são aplicadas a organismos públicos, coisa que o hospital pelos visto não é.
Fiquei mesmo desmoralizada; levantei-me, meti os meus papeluchos debaixo do braço e o rabo entre as pernas, e fui trabalhar, que é para isso que me pagam. Mas ia pelo corredor cheia de revolta. Custa ver colaboradores que trabalham no mesmo espaço físico e que são pagos pelo mesmo patrão terem direitos tão diferentes.
Custa muito levar uma nega mas pelo menos não fico a pensar nisto. Isto agora incha, desincha e passa. Mas pelo menos fui lá e falei! Saí de lá perfeitamente esclarecida mas mesmo assim ainda vou mandar um mail para a direcção da ADSE.
É triste falhar, mas mais triste ainda é não tentar! O não é sempre garantido, não custa nada ir à procura do sim.

segunda-feira, abril 20, 2009

Quem procura sempre acha?


Hoje fui à procura de um livro. Ia fisgada em comprar "O Leitor", de Bernhard Schlink; vi o filme no sábado à tarde e achei que seria boa ideia investir no livro. Entrei na loja e comecei a percorrer os corredores com os pés e as prateleiras com os olhos. Destaques, top livro, literatura estrangeira e nada. De repente, numa prateleira baixinha lá o vislumbrei. Desilusão, era tão fininho, umas míseras 144 páginas! Depois de um filme de duas horas estava à espera de um livro mais... robusto, um calhamaço mesmo. Claro que não é o tamanho que importa, mas sim o prazer que nos proporciona, mas o facto é que não comprei o livro.
Enquanto o procurava, dei comigo a pensar que era infinitamente mais fácil pedir ajuda ao colaborador da loja (ainda demorei uns bons 10 minutos a encontrá-lo), mas eu sou como os homens quando se trata de pedir indicações sobre o caminho para um sítio qualquer, prefiro demorar mais mas conseguir sozinha! De facto, as coisas que obtemos por nós próprios têm outro sabor; não nego que toda a gente precisa de ajuda de vez em quando, mas só depois de muita luta e de falhanço total. O facto de termos sempre alguém que nos ajude a fazer tudo pode fechar muitas portas; se eu tivesse pedido ajuda ao colaborador da loja não teria continuado a olhar para as prateleiras e não teria encontrado o livro que acabei por comprar: "Bom Karma - como obter e manter". Há tanto tempo que me questiono sobre essas coisas do karma e nunca pensei que viria a encontrar um livro que pudesse responder a muitas dessas questões. Claro que não me vai tirar todas as dúvidas (se calhar nem me vai tirar nenhuma) mas vai, pelo menos, satisfazer-me a curiosidade acerca deste assunto. Queria tanto fazer uma limpeza de karma, agora já não preciso de recorrer à tal "lavandaria esotérica", posso fazer uma sabonária em casa.
De facto, às vezes procuramos tanto uma coisa e não a encontramos, e quando menos esperamos, aquilo que procuramos é que nos encontra.

sábado, abril 18, 2009

E já lá vão 4 anos... (faz de conta que é dia 26 de Março de 2009)

Agora que aprendi a pôr vídeos no blog não quero outra coisa! Isso e o facto de não andar muito inspirada para escrever, às vezes é difícil organizar ideias e traduzi-las em palavras. Além do mais, e tendo em conta que o meu cantinho fez anos em Março, fica aqui a minha prendinha. É a origem do meu nick no blogger.
Faz de conta que hoje é dia 26 de Março de 2009. :)


terça-feira, abril 14, 2009

O poder da música

Esta é uma das minhas músicas preferidas de Lamb. A qualidade do som e da imagem não são as melhores mas não existe vídeo oficial. Incluí a letra num post de 2006 ("The way you made me feel") mas não há nada que chegue à força da música! Como diria Nietzsche, "Without music, life would be a mistake."

sábado, abril 11, 2009

"He´s not just that into you"


Ontem fui ao cinema ver um filme "de domingo à tarde", apesar de ser sexta feira à tarde. O título era sugestivo do tipo de filme, bem como do seu conteúdo, e por isso mesmo fui vê-lo. Por isso e por não haver nenhum filme na matiné que não fosse "de domingo à tarde".
Título do filme: "Ele não está assim tão interessado". Está-se mesmo a ver o género de filme: relações humanas, sinais mal interpretados, o quotidiano. Se tentarmos ver a coisa de um prisma menos crítico, quase que podemos tirar algumas lições em termos sociológicos. Posso dizer que aprendi algumas coisas, embora a maior parte das "lições" eu já tivesse tido na escola da vida (dramático! eheheh!), como levar uma tampa, por exemplo, e obtido aproveitamento com distinção!
O filme resume-se, basicamente, a um "guia" sobre os sinais que os homens dão quando conhecem uma mulher e revelam se ele ficou interessado ou não. Sei que os homens não são todos iguais, mas lá bem no fundo, são. O fundo genético, o instinto é igual. Está-lhes na "massa do sangue". E realmente há muitas coisas que fazem sentido.
Apercebi-me que os homens vêm as coisas de uma maneira muito mais simples, e que realmente as mulheres tendem a dramatizar as situações. De uma coisa de nada fazem um filme gigantesco (eu sei, eu já os fiz...) e que isso costuma dar mal resultado. E isso fez-me pensar. Fez-me perceber algumas coisas que estavam há muito tempo por esclarecer na minha cabeça. Se calhar se as mulheres pensassem um pouco, mas só um pouco, como os homens, as coisas talvez funcionassem de uma maneira mais simples. Podia perder-se um pouco da magia, que também é importante, mas talvez se evitassem algumas desilusões.
Também falavam no facto de ser sempre o homem a dar o primeiro passo; há homens que dizem "ah e tal, somos sempre nós que temos que tomar a iniciativa, porque é que não podem ser as mulheres a fazê-lo"; se formos ver bem, realmente se o homem não toma a iniciativa é porque não estará muito interessado. E se a mulher vê isso talvez se sinta insegura em ser ela a tomar a iniciativa. Resumindo: é muito complicado!
Por mais que as pessoas tentem perceber o que vai na cabeça de cada um, as pessoas têm vivências diferentes e reagem de forma diferente. Há pessoas que podem já ter sido rejeitadas inúmeras vezes mas lambem as feridas, recuperam e voltam à carga, tomam a iniciativa, não têm medo da rejeição porque já se habituaram a lidar com ela; há outras que não conseguem tomar a iniciativa e preferem perder a oportunidade de ser bem sucedidas (ou não) a tentar uma aproximação. Como diria Shakespeare, "E só nos faz perder o bem que poderíamos conquistar, o medo de tentar!". E como diria eu, "quem quer vai à luta!". Esta frase foi-me "cuspida" com algum desdém por alguém que já fez parte da minha vida e que nunca se poderia ter queixado de falta de luta da minha parte. Enfim, são águas passadas e que já vão bem longe, mas essa frase ficou-me na cabeça. E realmente é verdade, quem quer uma coisa tem que lutar por ela. Não podemos esperar que as pessoas entrem na nossa cabeça e no nosso coração, não podemos esperar que adivinhem o que sentimos ou o que pensamos. Às vezes nós próprias não damos os melhores sinais. Sei que é difícil abrirmos o nosso mundo mais íntimo e pessoal a alguém, mas se não o fizermos podemos correr o risco de passar ao lado de alguma coisa boa. Também corremos o risco de levar (mais) uma tampa mas acho preferível levar a nega do que ficar a pensar nisso o resto da vida "E se eu tivesse...?"
De facto, apesar de ser um filme "de domingo à tarde", que normalmente não necessita do uso do cérebro, deixou-me a pensar. Infelizmente não levámos nenhum homem connosco que nos pudesse dar umas deixas sobre a veracidade do que foi ali retratado, mas muitas daquelas coisas fazem sentido. Ou não farão? Hum... :)

domingo, abril 05, 2009

English Club - o renascer da fénix? Nã...


Como prometido, aqui vai o post sobre o English, a melhor (e única!) discoteca da terrinha. E porquê agora? Porque na sexta-feira, dia 3, foi tentada uma manobra de reanimação da dita, tipo massagem cardíaca ao som de muita martelada (leia-se house music).
Sendo a única discoteca do Fundão, o English sempre foi o ponto de convergência de toda a gente, novos e menos novos, a partir das 2h da manhã, hora a que o senhores agentes da GNR (agora GNR - Comércio Seguro) fazem a ronda para ajudar a esvaziar os bares mais depressa, num gesto de "solidariedade" para com os donos e/ou empregados dos ditos bares.
Há uns anos atrás, o English Bar (agora English Club) era uma discoteca de referência; vinha gente de tod'a Beira Baixa sacudir o esqueleto à nossa humilde discoteca, também famosa pela feijoada à sexta-feira. Era um local de convívio e muitas vezes os pais acompanhavam os filhos nessas saídas; os pais ficavam no bar do rés-do-chão, os filhos iam pintar a manta para as pistas (sim, tinha 2 pistas!).
Famosas eram as noites da saudosa e extinta FACIF, em que no sábado de encerramento, a discoteca enchia até ficar quase a rebentar pelas costuras e era loucura total! Ainda guardo recordações de uma FACIF em que o concerto do último sábado foi Xutos&Pontapés; não cabia mais uma alminha no English, dizem que os próprios Xutos andavam por ali a encanar cervejas, e o ambiente estava ao rubro! Havia pessoas em cima dos muros que rodeavam a pista nova (conhecida como "banheira" devido aos seus fabulosos mosaicos brancos), pessoas em cima das cadeira e parece-me (não juro) que também havia pessoas em cima de algumas mesas. O facto é que estava tudo animadíssimo e foi de facto uma noite memorável na história do English (Bar, na altura).
Como essa houve tantas outras noites, não era preciso motivo para haver festa no English. A desculpa em casa (estamos a falar do tempo da adolescência) era a festa de anos de amigos, alguns dos quais festejavam o anivesário várias vezes ao ano. Ou o fim das aulas. Ou o início das aulas. Ou o facto de estarmos a meio do 2º período. E as famosas matinés do English, com a sua festa da Porca e do Parafuso, em que entregavam à entrada uma porca às meninas e um parafuso aos meninos. O objectivo era encontrar o parafuso que encaixasse naquela porca, e assim era ver rapazes e raparigas tentarem encaixar os seus parafusos e as suas porcas (hum...). Quando encontrassem o par iam ao bar e recebiam uma bebida grátis ou outro presente qualquer (francamente não me lembro, nunca andava à procura do parafuso... era muito tímida). Também me lembro da festa do Graffiti, em que as paredes estavam forradas de plásticos gigantesco e o pessoal fazia graffitis com tintas que brilhavam no escuro. Isso é que eram tempos!
Depois o pessoal cresceu, acabou o liceu, foi para a universidade, e o English passou a ser o ponto de encontro nas férias de Natal, Carnaval, Páscoa e de Verão. Mesmo que uma pessoa saísse de casa sozinha, sem combinar nada com ninguém, sabia que se fosse ao English ia encontrar lá o pessoal todo. Era dado adquirido que início de férias dava direito a ida ao English no sábado. E era fixe encontrar pessoal com quem já não se estava há meses; nessas noites passava-se mais tempo a conversar e a beber do que a dançar. E as noites continuavam mesmo depois da discoteca fechar: ia tudo em romaria (no verdadeiro sentido da palavra!) até à estátua da Nossa Senhora de Fátima (carinhosamente apelidade de Santa), na Serra da Gardunha. O álcool ajudava à locomoção (ou não!) e viam-se grupos de pessoas pela estrada acima para abancar nas escadas que ladeiam o dito monumento. E a noite terminava de manhã, com o fantástico nascer do sol e o debandar do pessoal para casa ou para o parque de campismo, que fica mesmo ali ao lado.
Com o tempo foi necessário modernizar o velhinho English, que foi remodelado e transformado numa discoteca insípida e branca, nada a ver com o English "old school", escuro e tenebroso, mas sempre tão animado!
A mudança de visual do velhinho English roubou-lhe a alma, e o English começou a estar vazio daquelas pessoas que lá iam para se reverem. Havia outras, mas pessoas estranhas, que eu não conhecia. O pessoal deixou de ir ao English.
Claro que ainda existem os resistentes, o pessoal que insiste em ir quando vêm as férias, sempre na esperança de reencontrar os amigos. Mas nunca reencontram ninguém.
Por isso, quando nesta sexta feira anunciaram um DJ set "Mr. Lemon e Mr. Marrusso" a prometer "let´s rock and electrify", eu fiquei com vontade de ir. Era início de férias da Páscoa, podia ser que, pelo menos uma vez, o English voltasse a ser o que era. Estive quase a desistir mas lá fui arrastada para lá, sempre com a esperança de que não me fosse arrepender. Já lá não ia há uns bons meses, e enquanto entrava e subia as escadas pensava que ia ser uma noite bem fixe. Mas quando entrei na pista, a expectativa deu lugar à desilusão. Embora estivesse uma casa compostinha em termos de quantidade de gente, o som não era bem o que eu estava à espera. Resumindo: defraudou as minhas expectativas. Aguentei a meia hora da praxe, paguei uma cerveja do meu cartão a um amigo, dei mais meia hora para não parecer mal, e fui para casa.
Tinha a ideia de que o English seria como a fénix, podia ter sido queimado mas iria renascer. Agora acho que não, acho que o English perdeu a sua alma, e quando os lugares perdem a alma dificilmente voltam a ser o que eram.

quarta-feira, abril 01, 2009

"Some days are better than others"

Há dias em que gostava de passar total e completamente despercebida. Sem que ninguém reparasse em mim, na minha expressão, no meu silêncio.
Gostava de poder dizer as coisas sem ser por meias palavras, gostava de chamar as coisas pelos nomes, agarrar o touro pelos cornos.
Gostava que o meu olhar conseguisse transmitir de forma inequívoca o que me vai na alma, gostava que a tristeza ou a alegria que deles irradia pudesse ser captada, gostava de não precisar de palavras para dizer o que sinto.
Gostava que o meu toque conseguisse transmitir o carinho, o afecto, a paixão, para que nunca restassem dúvidas do porquê de estar ali e não noutro lado qualquer. Gostava de deixar de desejar repetir o irrepetível.
Há dias assim. Felizmente, hoje não é um desses dias!

segunda-feira, março 30, 2009

Bem hajam!!


Eh pá, vi agora que o meu modesto cantinho nesta imensa rede que é a Internet já teve 2000 visitas! Claro que comparado com outros blogues, isto não é nada, mas tendo em conta que sou apenas uma ilustre anónima, estou muuuito feliz!
Bem hajam a todos os que perderam um pouco do seu precioso tempo para passarem por aqui e lerem um pouco daquilo que me vai na alma. Bem hajam pelos comentários e pelas palavras de incentivo. Afinal, são os leitores que dão sentido aos blogues. Bem hajam e voltem sempre!

domingo, março 15, 2009

"Deus te dê em dobro"... o quê?


Hoje fui "agraciada" com a tão popular expressão "Deus te dê em dobro". Ora esta singular expressão é utilizada quando se quer agradecer qualquer coisa, seja a paciência com que se ouve uma pessoa que precisa de desabafar, a compaixão com que se comparte o sofrimento de alguém ou a caridade de dar ajuda a quem mais precisa.
Quando desliguei o telefone fiquei a pensar "O dobro de quê?". Porque normalmente costuma-se dizer "Deus te dê o dobro daquilo que me desejas", o que acaba por ser um pau de dois bicos (é tipo aquela praga "havia de te dar uma dor tão grande que só te desse para correr; quanto mais corresses, mais te doesse, se parasses, rebentasses"); se uma pessoa gosta da outra e até lhe deseja o bem, então Deus irá retribuir com o dobro do bem. Se por acaso é mais uma questão de ódio figadal, então aí a retribuição será em dobro do mal, e aí a coisa fica mais complicada. É, pois, uma expressão com um duplo significado mas que acaba sempre por cair bem, seja por sinceridade, seja por cinismo.
Já a expressão "Deus te dê em dobro" é um pouco dúbia. Deus me dê em dobro o bem que fiz ou o mal que, de alguma forma, ajudei a aliviar? Deus me dê em dobro a paciência que às vezes vou buscar não sei bem onde ou as chatices que às vezes tenho que aturar?
Eu quero acreditar que será sempre "em dobro" o bem que fiz mas olhando um pouco à minha volta, parece-me que não será bem bem isso que quer dizer; porque, e recorrendo à minha frase favorita de Camões que eu nunca me cansarei de utilizar, "os bons vi sempre passar/na vida grandes tormentos/enquanto os maus vi sempre nadar/ em mares de contentamentos", o que eu vejo à minho volta é mesmo isso. Já não se recompensa o bem, acho que o altruísmo apenas traz satisfação pessoal (o que por si só já é um bem, claro!) e não graças divinas que às vezes nos faziam muito jeito que nos fossem concedidas.
Depois penso que até há imensas graças divinas a virem na minha direcção, tipo os tiros das naves espaciais do saudoso jogo dos anos 80 "Space Invaders", mas está a tal história mal resolvida do karma que eu falei num post anterior.
De qualquer maneira, vou tentar esquivar-me ao karma (se tal for possível; pela definição penso que não mas tento na mesma, que se lixe) e ver se alguma das graças divinas com que tantas vezes sou agraciada me acerta e me faz explodir de felicidade. Que Deus me dê em dobro qualquer coisa boa.
(desculpem se este post parece uma revisão linguística, literária e filosófica, mas hoje acordei com os pés de fora e por isso estou rabugenta :p)

domingo, março 01, 2009

O que não é natural...


Dizia o velho e saudoso anúncio do restaurador Olex, "Preto de cabeleira loira e branco de carapinha não é natural". E eu acrescento "O que também não é natural é alheira vegetariana". Sim, porque uma alheira que se preze tem que ter carnunça, geralmente franguinho. Ora ontem resolvi ser uma "ganda maluca" e experimentar uma alheira vegetariana, ou seja, sem carne. Geralmente não gosto muito dessas experiências culinárias; para mim nada de feijoada de chocos (feijoada tem que ter carne), embora aprecie bastante uma boa lasanha vegetariana (é o meu cartão de visita culinário). Como estava a dizer, resolvi viver a vida no limite e comi uma alheira vegetariana; era fabricada em Mirandela, por isso era uma verdadeira alheira, mas em vez de frango tinha azeitonas e pimentos. O sabor era o mesmo, assim como o cheiro. Com um ovo estrelado e umas batatinhas fritas até era capaz de passar por uma verdadeira alheira de Mirandela com carne. O pior foi depois do almoço; parece-me que afinal a alheira vegetariana, apesar de ser mirandesa, não é bem igual à alheira não-vegetariana, e o meu estômago acusou logo o toque. Parece que as minhas entranhas se revoltaram contra o facto de eu estar a comer alheira e enquanto elas esperavam pela carninha, eu presenteava-as com umas belas azeitonas e pimentos. Parece mesmo que o meu cárdia pensou "Ai queres enganar-nos, hein? Há alheira mas não há carninha, é? Então espera aí que eu já te digo.". Rápida comunicação com o intestino e já se sabe: foi a revolta total das entranhas!
Felizmente foi episódio curto, mas obrigou-me a andar a sumo, chá e água a noite toda, bebidas que devo dizer que deviam estar "minadas" porque passei a noite a rir e a dizer disparates. Será que é moca natural? Ou será que as minhas entranhas revoltadas produziram alguma espécie de substância "endorfínica" como comemoração da sua vitória? Hum... O certo é que uma alheira que se preze tem que ter carne, e acho que não irei voltar a comer alheira vegetariana tão cedo. Por afinal não é natural... apesar de ser muito boa!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Parabéns, Charles Darwin!


Como orgulhosa bióloga que sou, não poderia deixar de dar os parabéns a Charles Darwin, que faria hoje 200 anos. É uma bonita idade, 200 anos... E é bonito ver que após quase 200 anos, alguns dos fundamentos da sua teoria de evolução das espécies estão perfeitamente adaptados ao nosso mundo.
No seu livro "A origem das espécies", Darwin introduziu a ideia de que todos os seres vivos evoluíram de um ancestral comum e que essa evolução seria "conduzida" pela selecção natural, ou seja, os caracteres hereditários que favorecem a sobrevivência de um indivíduo num determinado ambiente são cada vez mais frequentes nas gerações seguintes, resultando numa população perfeitamente adaptada a esse mesmo ambiente. O problema é quando o ambiente que rodeia a população muda, aí está o caldo entornado, e os tais caracteres que até favoreciam a população num determinado ambiente passam a ser desfavoráveis num outro, e a população, outrora perfeitamente adaptada, passa a ser "peixe fora de àgua" e corre o risco de se extinguir. Resumidamente, é a lei do mais forte: adaptas-te, tudo bem; não te adaptas, já foste.
(lentamente, a fase darkness está a desparecer...)

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O primeiro borrão de 2009...


Realmente tinha começado bem, o ano. Ainda não tinha havido braços a esbarrar com tinteiros e a deixar borrões nas folhas. A caligrafia até estava a sair bonitinha, sem erros ortográficos. E de repente, a letra começa a sair torta, erros ortográficos aparecem sabe-se lá de onde e tenho que começar a tentar emendá-los. Estava convencida que o caderno não ia ter rasuradelas mas pelos vistos enganei-me.
Ainda dizem que este ano é o ano do Aquário; que seria se não fosse...
(Espero que esta malvada fase darkness passe rapidamente, quero estar na fase wonder!!)

É mais do mesmo... que miséria!

Bem gostava de escrever algo mais alegre mas realmente a coisa está preta. E agora já nem posso culpar a chuva pela minha "depressão", uma vez que S. Pedro finalmente ouviu as preces de muitos crentes aqui em baixo e fechou a torneira. Parece que a "culpa" desta "depressão" está mesmo algures entre a minha cabeça e os meus pés...
Neste momento, sinto-me cansada. Não cansada fisicamente, mas um cansaço psicológico, se é que isso existe. Estou farta de ver injustiças, farta de ver singrar quem não merece, farta de tentar mostrar o que valho e ninguém ver. Por isso começo a questionar: "será que valho mesmo aquilo que penso?". Pergunta estúpida, absurda mesmo, acho que ainda sei avaliar as minhas qualidades. Mas olho à volta, e a dúvida assalta-me: "se calhar há aqui qualquer coisa que me escapa...".
Sempre fui lutadora, sempre tentei lutar por aqui que queria, às vezes até à exaustão, às vezes mesmo quando já não havia mais por que lutar. Mas agora estou cansada. Já não me apetece lutar. Apetece-me deixar-me ir à deriva dos acontecimentos, tipo folha de árvore que caiu num rio de águas tumultuosas e que espera para ver onde a corrente a vai levar. Vejo tantas pessoas a quem as coisas caem na sopa, assim sem mais nem menos, e penso: "porque é que, por uma vez na vida, não pode cair-me uma coisa fixe na sopa, tipo um fio de natas, em vez de caírem moscas atrás de moscas?". Uma coisa. Não peço mais. Depois de tantas lutas perdidas, de tanta energia desperdiçada com batalhas vãs, só peço uma coisa fixe a cair-me na sopa; pode ser um fio de natas, um punhado de "croutons" (sabem, aqueles pedacinhos de pão frito que se põem nas sopas passadas) ou até um ovinho batido (como na sopa de tomate).
Sei que as coisas têm mais valor e outro sabor (rima inesperada) quando são obtidas com esforço, mas um presente da vida de vez em quando até que sabia bem. Tenho muitas coisas boas, e lutei por todas elas, e tenho orgulho disso. Mas parece que há coisas que têm que ser oferecidas pela vida, e parece que há pessoas que têm um íman para atraírem essas coisas. Eu acho que não tenho esse íman... Até podia ser o meu presente da vida, um íman para atrair coisas boas! Se funcionar tão bem como o "caçador de sonhos" que tenho por cima da cama...
Sei que a felicidade absoluta não existe, o que existe são momentos felizes, e eu consigo ter vários momentos desses com coisas que parecem não ter grande significado (planear ir comer um gelado depois do trabalho, receber uma chamada de um amigo de quem há muito não tinha notícias, ir ao cinema com os amigos). Mas às vezes isso não me chega...

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Direito de matar ou direito de morrer...?


Hoje de manhã ouvi nas notícias que finalmente autorizaram a retirada da alimentação artificial que mantinha viva, embora em estado vegetativo (será que estava mesmo viva?) uma mulher de 38 anos, Eluana Englaro. Fiquei contente, sou uma defensora acérrima da eutanásia; acho cruel prolongar uma vida que não bem uma vida, é um estado, é apenas estar ali, é apenas ser observado sem poder observar, é não ser autónomo, é precisar de uma máquina para respirar, para comer. Isso para mim não é viver.
Na famosa Wikipédia, a eutanásia (do grego ευθανασία - ευ "bom", θάνατος "morte") é definida como "a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.". Ou seja, acabar com um sofrimento que ninguém pode compreender, só mesmo quem está a passar por ele. Para mim, isso é um acto de misericórdia, não é um crime.
Claro que não é fácil tomar essa decisão. Quando o "enfermo" está consciente, a decisão é dele. Lembro-me da história de Ramón Sampedro, um espanhol que ficou tetraplégico num acidente e esteve 30 anos deitado numa cama. O caso dele comoveu-me, quando via as reportagens dele a pedir encarecidamente que o matassem porque ele não tinha força sequer para se suicidar, inconscientemente punha-me no lugar dele e tentava imaginar o que seria estar presa a um corpo inerte. Lembro-me de ele dizer que era uma cabeça presa a um cadáver e que já não queria viver assim. Era um homem na posse das suas faculdades mentais (embora admita que pudesse haver ali um toque depressivo) que não era capaz sequer de levantar um braço, quanto mais suicidar-se. Até para se suicidar precisava de ajuda! Ainda hoje me lembro de ver no Telejornal o jornalista anunciar que finalmente Ramón Sampedro tinha morrido, uma morte horrível por envenenamento com cianeto de potássio; não mereceria este homem uma morte digna, sem sofrimento? Não mereceria este homem partir em paz, serenamente, depois de 30 anos de sofrimento diário sem fim à vista? Infelizmente, a lei é clara e não é possível, pelo menos em Espanha, por fim à vida de um tetraplégico que não tem qualquer hipótese de um dia voltar a ser autónomo, e que está numa angústia psicológica brutal porque tem plena consciência disso.
Agora põe-se a questão de o "enfermo" não ter consciência de nada. Estar em coma, em estado vegetativo, apenas subsiste porque existem máquinas que o alimentam, que respiram por ele. A família vê-se a braços com uma decisão difícil. Eu sei, eu já passei por isso. Mas apesar da carga psicológica, acreditem que não é assim tão complicado como uma pessoa pensa. Basta pensar um pouco nas consequências de manter viva uma pessoa que está "morta"; eu era uma criança, o meu pai explicou-me da melhor maneira que soube e eu compreendi. E não hesitei em responder que era melhor desligar a máquina; porque compreendi que estar vivo não é só ter o coração a bater e os pulmões a oxigenar o sangue. Estar vivo é estar em contacto com o que nos rodeia, é poder reagir a um abraço, a um beijo, a um sorriso. De que serve ter o coração a bater se não se pode abraçar quem se ama e senti-lo bater mais depressa?
Apesar de defender a eutanásia, há uma coisa no caso da Eluana que me deixa apreensiva: os médicos apenas lhe vão retirar a alimentação e a hidratação. Ela vai demorar quase duas semanas a morrer, e vai morrer de fome e de sede. Ora, para mim isto não é bem bem eutanásia. O anestesista que acompanha o caso diz que ela não vai sofrer porque não tem actividade cerebral mas o facto é que vai ser uma morte lenta. E para mim a eutanásia devia ser uma morte relativamente rápida.
Recordo um filme, "Dead Man Walking", em que um preso é condenado à morte por injecção letal. Isto não é eutanásia? Porque é que dão uma morte indolor e rápida a um criminoso que matou não sei quantas pessoas à machadada e não mostra um pingo de arrependimento, e a uma desgraçada que está em coma há mais de 15 anos porque teve um acidente de viação deixam-na morrer à fome? Hum, sentimentos contraditórios apoderam-se de mim. Já não sei se estou assim tão contente por terem autorizado a retirada da alimentação artificial a Eluana Englaro.
O que continuo a defender é o direito a viver uma vida digna e autónoma, e quando isso não é possível, ao menos que se tenha direito a morrer com dignidade.