terça-feira, fevereiro 10, 2009

É mais do mesmo... que miséria!

Bem gostava de escrever algo mais alegre mas realmente a coisa está preta. E agora já nem posso culpar a chuva pela minha "depressão", uma vez que S. Pedro finalmente ouviu as preces de muitos crentes aqui em baixo e fechou a torneira. Parece que a "culpa" desta "depressão" está mesmo algures entre a minha cabeça e os meus pés...
Neste momento, sinto-me cansada. Não cansada fisicamente, mas um cansaço psicológico, se é que isso existe. Estou farta de ver injustiças, farta de ver singrar quem não merece, farta de tentar mostrar o que valho e ninguém ver. Por isso começo a questionar: "será que valho mesmo aquilo que penso?". Pergunta estúpida, absurda mesmo, acho que ainda sei avaliar as minhas qualidades. Mas olho à volta, e a dúvida assalta-me: "se calhar há aqui qualquer coisa que me escapa...".
Sempre fui lutadora, sempre tentei lutar por aqui que queria, às vezes até à exaustão, às vezes mesmo quando já não havia mais por que lutar. Mas agora estou cansada. Já não me apetece lutar. Apetece-me deixar-me ir à deriva dos acontecimentos, tipo folha de árvore que caiu num rio de águas tumultuosas e que espera para ver onde a corrente a vai levar. Vejo tantas pessoas a quem as coisas caem na sopa, assim sem mais nem menos, e penso: "porque é que, por uma vez na vida, não pode cair-me uma coisa fixe na sopa, tipo um fio de natas, em vez de caírem moscas atrás de moscas?". Uma coisa. Não peço mais. Depois de tantas lutas perdidas, de tanta energia desperdiçada com batalhas vãs, só peço uma coisa fixe a cair-me na sopa; pode ser um fio de natas, um punhado de "croutons" (sabem, aqueles pedacinhos de pão frito que se põem nas sopas passadas) ou até um ovinho batido (como na sopa de tomate).
Sei que as coisas têm mais valor e outro sabor (rima inesperada) quando são obtidas com esforço, mas um presente da vida de vez em quando até que sabia bem. Tenho muitas coisas boas, e lutei por todas elas, e tenho orgulho disso. Mas parece que há coisas que têm que ser oferecidas pela vida, e parece que há pessoas que têm um íman para atraírem essas coisas. Eu acho que não tenho esse íman... Até podia ser o meu presente da vida, um íman para atrair coisas boas! Se funcionar tão bem como o "caçador de sonhos" que tenho por cima da cama...
Sei que a felicidade absoluta não existe, o que existe são momentos felizes, e eu consigo ter vários momentos desses com coisas que parecem não ter grande significado (planear ir comer um gelado depois do trabalho, receber uma chamada de um amigo de quem há muito não tinha notícias, ir ao cinema com os amigos). Mas às vezes isso não me chega...

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Direito de matar ou direito de morrer...?


Hoje de manhã ouvi nas notícias que finalmente autorizaram a retirada da alimentação artificial que mantinha viva, embora em estado vegetativo (será que estava mesmo viva?) uma mulher de 38 anos, Eluana Englaro. Fiquei contente, sou uma defensora acérrima da eutanásia; acho cruel prolongar uma vida que não bem uma vida, é um estado, é apenas estar ali, é apenas ser observado sem poder observar, é não ser autónomo, é precisar de uma máquina para respirar, para comer. Isso para mim não é viver.
Na famosa Wikipédia, a eutanásia (do grego ευθανασία - ευ "bom", θάνατος "morte") é definida como "a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.". Ou seja, acabar com um sofrimento que ninguém pode compreender, só mesmo quem está a passar por ele. Para mim, isso é um acto de misericórdia, não é um crime.
Claro que não é fácil tomar essa decisão. Quando o "enfermo" está consciente, a decisão é dele. Lembro-me da história de Ramón Sampedro, um espanhol que ficou tetraplégico num acidente e esteve 30 anos deitado numa cama. O caso dele comoveu-me, quando via as reportagens dele a pedir encarecidamente que o matassem porque ele não tinha força sequer para se suicidar, inconscientemente punha-me no lugar dele e tentava imaginar o que seria estar presa a um corpo inerte. Lembro-me de ele dizer que era uma cabeça presa a um cadáver e que já não queria viver assim. Era um homem na posse das suas faculdades mentais (embora admita que pudesse haver ali um toque depressivo) que não era capaz sequer de levantar um braço, quanto mais suicidar-se. Até para se suicidar precisava de ajuda! Ainda hoje me lembro de ver no Telejornal o jornalista anunciar que finalmente Ramón Sampedro tinha morrido, uma morte horrível por envenenamento com cianeto de potássio; não mereceria este homem uma morte digna, sem sofrimento? Não mereceria este homem partir em paz, serenamente, depois de 30 anos de sofrimento diário sem fim à vista? Infelizmente, a lei é clara e não é possível, pelo menos em Espanha, por fim à vida de um tetraplégico que não tem qualquer hipótese de um dia voltar a ser autónomo, e que está numa angústia psicológica brutal porque tem plena consciência disso.
Agora põe-se a questão de o "enfermo" não ter consciência de nada. Estar em coma, em estado vegetativo, apenas subsiste porque existem máquinas que o alimentam, que respiram por ele. A família vê-se a braços com uma decisão difícil. Eu sei, eu já passei por isso. Mas apesar da carga psicológica, acreditem que não é assim tão complicado como uma pessoa pensa. Basta pensar um pouco nas consequências de manter viva uma pessoa que está "morta"; eu era uma criança, o meu pai explicou-me da melhor maneira que soube e eu compreendi. E não hesitei em responder que era melhor desligar a máquina; porque compreendi que estar vivo não é só ter o coração a bater e os pulmões a oxigenar o sangue. Estar vivo é estar em contacto com o que nos rodeia, é poder reagir a um abraço, a um beijo, a um sorriso. De que serve ter o coração a bater se não se pode abraçar quem se ama e senti-lo bater mais depressa?
Apesar de defender a eutanásia, há uma coisa no caso da Eluana que me deixa apreensiva: os médicos apenas lhe vão retirar a alimentação e a hidratação. Ela vai demorar quase duas semanas a morrer, e vai morrer de fome e de sede. Ora, para mim isto não é bem bem eutanásia. O anestesista que acompanha o caso diz que ela não vai sofrer porque não tem actividade cerebral mas o facto é que vai ser uma morte lenta. E para mim a eutanásia devia ser uma morte relativamente rápida.
Recordo um filme, "Dead Man Walking", em que um preso é condenado à morte por injecção letal. Isto não é eutanásia? Porque é que dão uma morte indolor e rápida a um criminoso que matou não sei quantas pessoas à machadada e não mostra um pingo de arrependimento, e a uma desgraçada que está em coma há mais de 15 anos porque teve um acidente de viação deixam-na morrer à fome? Hum, sentimentos contraditórios apoderam-se de mim. Já não sei se estou assim tão contente por terem autorizado a retirada da alimentação artificial a Eluana Englaro.
O que continuo a defender é o direito a viver uma vida digna e autónoma, e quando isso não é possível, ao menos que se tenha direito a morrer com dignidade.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

"Wonder"


"lately i find myself
amazed at all around me
everything i see
like all of life's ablaze with light
that suddenly i see, only now i see

the wonder, the wonder of it all
wonder everywhere, more than we know
heaven's not up there, but on earth below

don't know if god exists
but there's some magic out there
so much we're not aware
and then sometimes suddenly i hear
a harmony sing, of each and everything

the wonder, the wonder of it all wonder everywhere, more than we know
heaven's not up there, but on earth below"

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Afinal não sou a única...


Não acredito muito em astrologia mas às vezes, quando não sei muito bem em que acreditar, até tenho curiosidade em ler as "previsões astrológicas". Seja qual for o profissional do ramo que eu consulte na internet, todos dizem o mesmo: 2009 é o ano do Aquário. Todos prevêm crescimento em todos os sectores e dizem que finalmente os Aquarianos irão colher os frutos de todo o seu trabalho e esforço. Gostava de acreditar nisso e vou tentar; what goes around comes around, pode ser que acreditando nestas previsões optimistas elas se concretizem.
Hoje estou num daqueles dias em que olho para o nome do meu blog e penso "Foi mesmo escolhido a dedo, pá!". Hoje estou mesmo na fase darkness... E é ainda pior quando olhamos à volta e vemos que não somos os únicos a estar assim, a modos que coisinho. Faz-me lembrar quando estava no 1º ano da universidade, cheia de vontade de me vir embora e não tinha coragem para o fazer. Foi só ver o pessoal da minha turma a debandar para fazer novamente os exames e tentar de novo a sua sorte que a coragem apareceu logo, assim, zás!, em menos de nada. Bastou um telefonema para o meu pai, arrumar o essencial, ir até casa e explicar os meus motivos. Na semana seguinte estava a abandonar a Universidade e a voltar a estudar para os exames.
Não é segredo para ninguém que me conhece que sou uma inconformada; pronto, não me posso queixar mas o ser humano é, por natureza, insatisfeito e quer sempre mais e mais e mais. Há muito tempo que me sinto assim, presa a uma rotina que já não me preenche, e a desejar muitas vezes não ter nada, para assim poder arriscar mais. Porque tendo em conta a maneira como as coisas estão, só mesmo um louco é que decidiria largar tudo o que tem por uma possível aventura. Sim, eu tenho noção que sou privilegiada mas não me sinto realizada. E não sei se vale a pena trocar a realização pelo privilégio...
Hoje tive noção que não sou a única. Que há outras pessoas à minha volta que, apesar de serem também elas privilegiadas, também não se sentem realizadas. Que têm outros planos para a sua vida. Que querem fazer outras coisas. Que não querem fazer o que fazem o resto da sua vida. Afinal não sou a única...
Eu nunca deixei de procurar a minha realização profissional, embora não consiga definir exactamente o que quero fazer e onde o quero fazer. Já tive fases de procura activa que em nada resultaram, e fases de procura passiva, em que pura e simplesmente esperava que alguma coisa aparecesse no horizonte. Mas hoje bastou alguém à minha volta exprimir em voz alta aquilo que eu sinto para me encher com aquela coragem que eu senti no dia em decidi voltar a fazer os exames. E decidi voltar à fase de procura activa. Com um problema adicional: já não estou tão livre. Assumi compromissos que me "prendem" um pouco, embora NUNCA definitivamente. Mas que me fazem olhar para trás e pensar 2 ou 3 vezes.
Não gosto muito de olhar para trás mas assusta-me ainda mais olhar para a frente. Não saber o que lá vem. Não saber se o conseguirei enfrentar. Não saber quais serão as consequências dos meus actos. Depender dos "ses" que governam este mundo. "Se eu fizesse assim, acontecia assado". Ah, se ao menos soubessemos o que é "assim" e "assado"...
O passado é um país distante onde vagueiam pessoas que nos parecem familiares mas o futuro é um continente inexplorado povoado de completos desconhecidos. Podemos ter sorte e encontrar pessoas porreiras ou ter o azar de dar de caras com autênticos anormais que nos vão fazer a vida negra. Seja como for, há que receber o futuro de peito aberto, para o que der e vier.
Só espero que os profissionais da astrologia tenham razão e que este ano seja mesmo mesmo bom para os Aquarianos. Pelo menos está a ser bom numa coisa: percebi que afinal não sou a única.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Houve festa em Aveiro! E que festa...!


Pois é, mais um ano... Mais uma vez sinto que estou a abrir um caderno novinho, com folhas brancas a pedir para serem escritas. Vamos lá a ver escrevo com uma letra bonita e sem erros ortográficos.

Posso dizer que o ano começou bem. Depois do Natal dei comigo a pensar " é desta que fico em casa a ver filmes na noite da passagem de ano", embora já tivesse marcado férias para essa semana e estivesse com vontade de ir para fora. O pessoal alinhou e aí fomos nós, a caminho de Aveiro. É curioso como passei tantos anos em Aveiro a querer vir embora e agora tenho passado as noites mais divertidas lá. Realmente a idade muda uma pessoa...
Foi uma festa porreira, com gente gira e um ambiente fantástico. O Alvim é um senhor, carago!, nunca pensei que fosse assim; geralmente quando se vai com grandes expectativas a desilusão é maior do que quando não se espera nada. Eu ia com alguma expectativa mas garanto que não me desiludi nada, embora a certa altura, durante o jantar, tenha sido assaltada pelo receio de a noite ser uma banhada. Tudo bem, no verão de 2007 tínhamos ido passar uma noite em Aveiro e tinha sido altamente, mas "o que foi não volta a ser/mesmo que muito se queira", como dizem os Xutos & Pontapés, e desejar que a noite fosse igualmente boa ou, quem sabe, melhor, era esticar um pouco a corda... ou não!
A festa foi espectacular, a companhia foi excelente e a música foi do melhor! Toda a gente sabe que o Alvim tem a mania de passar a música do D'Artacão, e para mim era um dos (esperados) pontos altos da noite (como vêm, as minhas expectativas eram realmente baixas); mas ver malta na casa dos 30 a cantar "Era uma vez os três/ os famosos Moscãoteiros" a plenos pulmões foi lindo, muito para além do que eu poderia esperar.
Foi um início de ano fantástico, com animação e boa disposição. Fartei-me de dançar, não toquei numa pinga de álcool (a não ser o belo champanhe para brindar ao novo Ano) e consigo lembrar-me de tudo; não houve música que eu não conhecesse, que não cantasse, que não dançasse.
E dei comigo a pensar que afinal não é assim tão mau estar na casa dos 30; viver a adolescência ao som de Xutos, Smashing Pumpkins, Guns 'n' Roses foi bem melhor do que vivê-la ao som dos D'Zert ou das Play Girls ou lá como elas se chamam.
Já há muito tempo que não tinha uma passagem de Ano tão porreira e tenho esperança que seja um prenúncio de um ano bom.
As primeira páginas do caderno "2009" começaram a ser escritas com letra bonita e sem borrões, vamos ver se assim se mantém...

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Do they know it's Christmas time?


É verdade, estamos quase no Natal... Não sei se é bom ou mau, uma vez que parece que o Natal foi ontem. O tempo voa a uma velocidade supersónica...

Não sei se fruto de toda esta conjuntura depressiva provocada por uma dita "crise" (que alguns insistem em dizer que é como o Pai Natal, isto é, não existe), eu, que até gosto do Natal, este ano estou assim a modos que coisinho... Fiz a àrvore de Natal anteontem e, sinceramente, foi um frete. Em 30 anos de vida, este foi o primeiro Natal em que foi um frete fazer a árvore. Não sei o que se passa mas acho que é geral. No laboratório, em 8 anos que lá estou, é o primeiro ano em que não há enfeites de Natal nas salas, nem o famoso pinheiro de Natal à entrada.

Isto está a deixar-me preocupada: estaremos todos à beira da depressão?

Já há iluminação de Natal nas ruas mas ainda não ouvi a música. As luzes parece que não iluminam nada, isto está muito esquisito.

A única coisa que me anima neste Natal é mesmo o facto de ter férias e poder estar com aquelas pessoas que não vejo há séculos! Estou deserta para que chegue a semana do Natal para poder tomar o tal "banho de gente". É que este Fundão está morto; não se passa nada, os bares fecham e até o English, o nosso local de paragem (outrora) obrigatório ao fim de semana vai encerrar as portas (ainda hei-de fazer um post sobre o English, merece!)...

Tenho esperança (porque o Natal é tempo de esperança) que as coisas melhorem, que as pessoas e a economia mundial se animem, porque este clima depressivo está a começar a mexer comigo. No nosso cantinho do céu no laboratório, a insanidade impera e a boa disposição também, valha-me ao menos isso, mas não é o suficiente. There is someting in the air... Estou a ficar deprimida, é melhor parar por aqui. Melhores dias virão. Espero que já amanhã...


terça-feira, setembro 16, 2008

Não há coincidências.Não...?

Eu costumava acreditar que não havia coincidências, que tudo acontecia por uma razão. Num dos cadernos que guardo religiosamente desde os meus 13 anos, uma espécie de diário mas em tamanho A4 (e que não sei se guardarei durante muito mais tempo), escrevi um texto sobre isso mesmo: que estar num determinado sítio a uma determinada hora é resultado de uma conjunção astral que possibilita um determinado acontecimento. Tipo, se eu não tivesse saído de casa àquela hora não tinha encontrado aquela pessoa e não tinha acontecido aquele beijo. Ui, acho que a minha adolescência foi feita dessas "coincidências", ou pelo menos eu sempre quis acreditar nisso. Mas isso foi lá atrás, há 15 anos... Será?

Nestes últimos tempos fui de novo assaltada por essa estranha sensação de não haver coincidências, estranhamente envolvendo as mesmas pessoas. Foi estranho, quase um regresso ao passado. E deixou-me melancólica, sem saber se me estava a sentir mal ou bem...

É muito aborrecido ter coisas mal resolvidas, porque basta uma pequena distracção para que o passado nos entre pela porta e nos deixe de cara à banda. Bem, mais ou menos, que a idade é outra e o jogo de cintura também. O que eu não estava a contar é que esta situação mexesse comigo, e isso incomoda-me um pouco, confesso.

Esta sensação de dejá vu apanhou-me de surpresa, pois não estava à espera que me tocasse ou me deixasse com um frio na barriga. Mas deixou. Grande m... O que vale é que a malta é crescida, e as cabeçadas servem para se aprender com elas. É por isso que eu digo "nunca" a alguns amigos que, com ar maldoso, fazem insinuações acerca destas "coincidências" que aconteceram neste curto espaço de tempo. É que o espaço de tempo é que me deixa a pensar!

De qualquer maneira, tenho que confessar, faz parte do ser "adulta", que até apreciei um pouco a situação. Apesar de ter sido apanhada um pouco de surpresa e me ter sentido com 15 anos, é bom sentir o frio na barriga mas com total controlo da situação. Ufa, ao menos isso, assim sempre se aprecia melhor a coisa!

Para ajudar à festa, ontem fui ver o "Mamma Mia" e a nostalgia apoderou-se totalmente de mim, justamente agora que a coisa estava controlada!! Malditos sejam os Abba e as suas músicas lamechas e tão surpreendentemente reais!

Acho que a culpa também é dos meus cadernos que guardo religiosamente debaixo da minha cama. Aposto que são esses desgraçados que estão a enviar-me mau feng shui durante a noite. Tenho mesmo que me desfazer deles; embora por um lado me custe porque são sete anos da minha vida que estão ali, descritos ao pormenor, por outro (já) não me identifico com a rapariga que escreveu aquilo (e ainda bem!) e custa-me ler aqueles textos porque parece que estou a viver novamente aquela situação, e isso assusta-me. Não sei mesmo o que fazer... Estava a pensar queimá-los na lareira da minha casa, quando me mudar para lá, tipo um ritual de corte radical com o passado, corte que eu pensava que já tinha feito mas que, pelos vistos, não fiz. Mas e se me arrependo? E se daqui a outros 15 anos eu os quiser voltar ler e voltar a sentir aquele turbilhão de emoções? Realmente é triste, preciso de recorrer aos meus diários para sentir um turbilhão de emoções... Bem dizia uma amiga minha, é preferível sentir dor do que não sentir nada.

domingo, julho 06, 2008

Há 15 anos atrás...


"Era uma vez uma menina. Uma menina normal, não daquelas que tocam piano, usam vestidinhos e trancinhas, e que fazem crochet à hora do chá. Essa menina tocava guitarra, vestia calças de ganga e sapatilhas, usava o cabelo comprido e solto, e à hora do chá lia livros de aventuras.

Essa menina estava apaixonada. Uma paixão normal, não daquelas em que se faziam serenatas, e em que era o homem que tomava a iniciativa, e em que se cora e se baixam os olhos que ele a olha, e em que não se diz o que se sente. Uma paixão em que é ela que toma a iniciativa, em que quando ele a olha, ela olha nos olhos dele, bem fundo, e em que ela diz o que sente.

Esse menino de quem ela gostava era uma menino normal. Não daqueles que toca violino, que quer um cavalo e uma limusine, e que faz companhia às senhoras enquanto elas bebem chá e comem bolinhos. Esse menino também tocava guitarra, também usava calças de ganga, queria uma mota e ao lanche bebe Coca-Cola e come uma tosta mista ou um bolo na companhia dos amigos e amigas.

Um dia, essa menina disse ao menino que amava tudo o que sentia. Disse por palavras, frases, gestos expressões, e não por carta em papel muito bonito e perfumado, escrita com uma pena de pato, ao luar, entre muitos suspiros.

O menino olhou-a nos olhos e disse que não a amava. Que apenas gostava dela como amiga mas que talvez um dia sentisse algo mais forte.

A menina gostou da franqueza com que ele disse o que sentia. E quando chegou a casa chorou. Chorou e libertou o coração do sofrimento que sentiu quando as palavras brotaram dos lábios dele como penas e atingiram o coração dela como facas e que a puseram a sangrar por dentro.

O menino gostava (gostava, não amava) de outra menina que também usava calças de ganga mas que tinha a mentalidade das meninas que fazem crochet à hora do chá.

Hoje, ele namora com essa menina e a outra menina está a sofrer, e o coração sangra, e está seco de tanto sangrar.

Outros meninos e meninas que são amigos do menino e da menina que o ama dizem à menina que vale a pena esperar, que ele sente algo pela menina que não quer sentir ou que não sabe que sente.

E neste momento, a menina que usa calças de ganga e sapatilhas, que usa cabelo comprido e solto, que toca guitarra e lê livros de aventuras à hora do chá sente-se tão fraca como as meninas que usam vestido, tranças e fazem crochet à hora do chá e que tocam piano para os amigos dos pais.

E o amor que a menina sente pelo menino é tão puro, tão forte que não vai ser destruído pela outra menina, pelo tempo ou pela distância.

E ainda agora, a menina que usa calças de ganga e sapatilhas e que tem longos cabelos encaracolados está à espera do amor que há-de vir a nascer no coração do menino que ela ama. E quando esse amor nascer, há-se ser tão forte, tão sólido, tão puro que nada nem ninguém (nem mesmo a outra menina das calças de ganga) o vai destruir... Porque o amor, tal como a esperança, não morre..."

??/??/1993

domingo, outubro 14, 2007

Sem título


Sem título ou sem palavras, não sei bem... Há sentimentos que me revolvem as entranhas mas que são difíceis expressar.
Ponho-me a pensar na vida, na vida como existência, e muita vezes pergunto-me: para quê? ou então, porquê? Desde pequenos, aqueles que tiveram uma educação católica, fomos incutidos com a ideia de que Deus é um velhote de barba e túnica brancas e que a Sua bondade é infinita. Mas depois ligamos a televisão e vemos terramotos que fazem milhares de vítimas, entre elas crianças, vemos inundações levar os poucos haveres pertencentes a famílias pobres. E às vezes, infelizmente, vemos bem perto de nós pessoas a lutarem pela vida, muitas vezes uma luta desigual que acaba com a derrota. E é aí que me pergunto: para quê? Para quê tanta luta, tanto esforço, tanto sofrimento? E porquê? Porque é que o velhote de barba branca, na Sua imensa bondade, permite estas situações? Há tanta gente a pedir para morrer e continua a viver, há tanta gente a pedir para viver e acaba por morrer - há aqui qualquer coisa que não está bem...
Em certas situações dizemos "foi melhor assim" ou "já viveu uma boa vida, está na hora de descansar"; mas agora não posso dizer isso. Não, não foi melhor assim; não, não estava na hora de descansar, ainda tinha toda a vida pela frente. Então porquê?

Queria dizer muita coisa mas não sei o quê nem como. Apenas queria manifestar a minha revolta. Não posso dizer que perdi um amigo porque nunca privei muito com ele mas privo com pessoas que o conheciam bem, e vejo o sofrimento delas. Sei que ele era uma pessoa boa. E que era jovem. E que estava a lutar pela vida.
Infelizmente sei o que é o vazio da ausência. Sei o que é não ter o cliché "estava na hora, já tinha vivido tudo" para nos confortar. E custa muito mais. Porque nos perguntamos constantemente: porquê?
Por isso é que não sei o que dizer. Porque sei que nada do que se diga alivia a dor. Apenas posso dizer que o tempo tudo cura. E que as pessoas só morrem se nós deixarmos; elas continuam vivas no nosso coração e no nosso pensamento.

quinta-feira, setembro 13, 2007

"Put the cream on the ball" ou "Bolinhas da ASAE"



Após um período de loooongas férias (mas só de blog, que de trabalho foram só 2 semanas) estou de volta!
Esta última semana de férias passada no Algarve/Allgarve, mais precisamente em Portimão/Foryouhand mostrou-me uma realidade terrífica para mim: já não há bolas de Berlim com creme na praia! Essa instituição que é a "bolinha", vendida por homens e mulheres vestidos de branco, com geleiras ao ombro e que calcorreiam a praia milhentas vezes por dia faz parte do meu imaginário de infância, em que eu comia, sem exagero, 3 ou 4 bolinhas com creme de uma assentada só, regadas com uma garrafa de água fresquinha e que acabava, invariavelmente, no WC mais próximo.
Ora eu só como bolas de Berlim na praia; só lá é que me sabem bem, pronto. Passo então o ano todo a "sonhar" com as toneladas de bolas com aquele creme maravilhoso. No ano passado não fui ao Algarve/Allgarve e por isso não comi bolas de Berlim; este ano estive em Albufeira/Allbufeira em Maio mas ainda não era a época das bolinhas. Era natural que eu estivesse cheia de vontade de trincar uma daquelas bolas maravilhosas com que sonho o ano todo mas só como na praia porque só aí faz sentido para mim. E eis quando, depois de 2 ou 3 anos sem ouvir aquela buzina de calhambeque e o pregão "Olhá bolinha!", eu dou um salto da toalha, corro para o vendedor que carrega a geleira e me apercebo que só há bolinhas sem creme! O senhor que chega antes de mim para comprar bolinhas (com creme) fica espantado quando o vendedor lhe responde à sua pergunta "não tem com creme?", "não, a ASAE não permite."
Mas quem é esta ASAE, que proíbe um dos ex-libris das nossas praia algarvias? Ok, o creme com o calor pode estragar-se e é para bem do consumidor que se apertou a fiscalização, mas convenhamos que as bolinhas com creme não chegam a durar uma hora dentro das geleiras. Não foi só uma vez que verifiquei que o vendedor nem a meio da praia chegava com a geleira cheia, alguns banhistas desapontados porque já não havia mais bolinhas, situação que o vendedor prontamente resolvia, dirigindo-se para o ponto de abastecimento. Fiquei triste, embora isso não me impedisse de comprar uma bola sem creme todos os dias, e saboreá-la como se estivesse a comer uma verdadeira bola de Berlim. Sim, porque me recuso a chamar "bola de Berlim" a uma bola que é em tudo igual a uma bola de Berlim mas sem a essência da bola, o creme. Por isso, proponho que se chamem à bolas sem creme que se vendem na praia "bolas da ASAE".
É de notar que a ASAE deve estar a pensar em abrir um franchising, uma vez que parece que também andam a chatear o pessoal que cozinha o cabrito no forno de lenha (aí será "cabrito no forno à moda da ASAE", isto é, no forno sem ser de lenha), que faz empadas em casa e que são mil vezes melhores que as que se fazem nas padarias e hipermercado, e que tem salsa no seu quintal e até a quer vender na praça mas não pode, não há facturas nem guias de transporte.
Por favor, há estabelecimentos comerciais que, apesar de terem instalados todos os procedimentos de higiene, HACCP e ISO qualquer coisa, são bem mais sujos que as nossas cozinhas. Atenção, acho bem que fiscalizem, ainda bem que fecharam todos aqueles restaurantes chineses e pastelarias que tinham bolor nas batedeiras do pão. Mas deixem em paz as bolas de Berlim da praia, o cabrito no forno (que eu nem aprecio mas que acredito que, para quem gosta, saiba um trilhão de vezes melhor se for feito em forno de lenha e na travessa de barro) e as empadas caseiras. Agradecida.

sábado, junho 16, 2007

epiderme


(s.f), do Lat. epiderme < epidermís; camada celular que cobre a derme e que com ela forma a pele; parte exterior dos corpos organizados; pele

Mais uma vez, uma palavra para um jovem actor que se aventurou, desta vez, pelas artes da literatura. Tive o previlégio de assisitir ao lançamento do livro, que foi o culminar de uma dura luta para o trazer à luz do dia. Sem apoios (entenda-se patrocínios), fora dos circuitos de publicação habituais, mas com grande apoio dos amigos. E isso vale mais que um patrocínio.
Ainda não o li, mas tenho a certeza que, quando o fizer, vou gostar. Porque sou frequentadora do blog dele e gosto. Porque já o vi actuar e gosto. Porque o conheço e gosto da pessoa que ele é.
Parabéns pela persistência, por não desisitires, por não teres baixado os braços, mais uma vez. Que seja o primeiro de muitos livros, cá estaremos para apoiar! C'um camandro!
Eu já tenho um! E autografado!!!

segunda-feira, junho 04, 2007

Afinal Lisboa até tem umas coisas interessantes...


Pois é, há muito tempo que não vinha ao meu cantinho "postar" umas palavrinhas... O tempo não tem sido muito e a inspiração também não.
Há cerca de um mês levaram-me a passear por Lisboa; Lisboa e não "Lxboa", que era a que eu conhecia, a Lisboa dos centro comerciais. Não, desta vez andei a pé em Lisboa, por aqueles bairros antigos que tanto me fizeram lembrar Castelo Novo e Alpedrinha. Por momentos esqueci-me que estava na nossa capital. Fomos à Feira da Ladra, ao Panteão Nacional (mas não pudémos entrar...), à Sé (aí pudémos entrar, mas fomos logo corridos porque estava a fechar), fomos até ao Castelo de São Jorge. Percorrer Lisboa a pé, andar por aqueles bairros, e ainda por cima com um guia cheio de conhecimentos, foi muito bom. Sim, o passeio foi bom mas a companhia foi excelente! Bebemos uma ginjinha maravilhosa que me arrumou logo a um canto (ando a faltar aos treinos!), jantámos na Casa do Alentejo, onde assistimos a um concerto de crianças de Leste que cantavam muito afinadas naquela língua estranha que eles falam.
Foi sem dúvida uma tarde e uma noite muito bem passadas. Foi bom conhecer uma faceta de Lisboa que eu não conhecia e que me fez gostar mais um pouquito dessa cidade que tanto me "assusta" por ser tão diferente do ambiente onde cresci.
Lembro-me muitas vezes desse Sábado e tenho pena de não voltar a sentir todo aquele encantamento enquanto percorríamos as ruelas dos bairros de Alfama e Mouraria; porque sei que se voltar lá não vou sentir a mesma coisa, pelo menos não vou sentir com a mesma intensidade. Este é um dos momentos que eu gostava de reviver. Tenho que me render às evidências: afinal Lisboa até tem umas coisas interessantes... :)

domingo, fevereiro 04, 2007

Como não podia deixar de ser... o aborto: sim ou não?


Quem é vivo sempre aparece, e eu ainda ando por aqui e, tcharam!, apareci. E como não podia deixar de ser, cá vou eu deitar mais uma acha para a fogueira, já bem acesa, do aborto.
No referendo de 1998, eu votei "Sim"; não me recordo exactamente qual era a questão que era colocada mas sei que o meu "sim" me colocou do lado dos pró-aborto. Este ano a coisa está um pouco balançada; quando me perguntam o que vou votar, eu não respondo "Sim!" com a convicção que respondi a essa mesma pergunta há 9 anos atrás. No entanto, a minha orientação de voto é a mesma de 98; passo a explicar (embora a isso não seja obrigada, mas é bom para mim, de modo a organizar um pouco os meus próprios argumentos). Eu não sou a favor do aborto a pedido, do género "ah e tal, não usámos preservativo, isso tira o prazer, e olha, engravidei, vai-se lá saber como nem porquê, e por isso hoje não dá para ir ao cinema porque vou ali fazer um aborto mas amanhã podemos combinar"; há que haver um pouco de consciência quando se fazem as coisas, não sou a favor, sou mesmo CONTRA que se utilize o aborto como método contraceptivo. Depois há a outra face da moeda: o casalinho até usa preservativo mas o dito método não é 100% eficaz e rebenta. A rapariga engravida, mas tem 15 anos, tem planos para o futuro e ter uma criança enquanto acaba o liceu não faz parte deles. Ora se tomam todas as precauções, não acho justo que a vida da rapariga (e também a do rapaz, se for um rapaz minimamente responsável) seja marcada por uma experiência negativa que é ser mãe à força, só porque não tem dinheiro para ir a uma clínica a Espanha ou porque não lho farão num hospital público, uma vez que não encaixa nos casos enumerados pela lei como sendo "elegíveis"(?!) de fazer aborto legal. E atenção, porque a experiência é negativa para a mãe e para a criança, porque é difícil uma rapariga com 15 anos ter maturidade para ser mãe. Algumas mentes mais puritanas dirão (e disseram-mo)" ah, mas para ter relações já tem maturidade!", eu respondo: o referendo é sobre o aborto, não é sobre com que idade se tem maturidade para ter relações sexuais; cada um sabe de si e não há uma idade para iniciar a vida sexual. O que importa é que quando se comece, se tenha toda a informação, se tenha a noção das consequências que advêm da falta de planeamento familiar. Neste caso, o casalinho tinha a informação e utilizou os métodos. Teve azar, deve pagar por isso pondo no Mundo uma criança que pode nunca vir a ser feliz, que se calhar será abandonada e acabará morta de fome, ou então explorada, violada ou presa? Eu acho que não. Mas atenção, isto não é obrigatório! Conheço vários casais que tiveram este "azar" mas que optaram por ter a criança, e não se arrependem. E acho muito bem, liberdade de escolha acima de tudo.
E acho que é por isso que eu vou votar "SIM", para que possa haver liberdade de escolha, para que não haja milhentas crianças abandonadas nas ruas ou em instituições onde não passam de mais uma boca para alimentar, à espera que alguma alma caridosa as adopte, e quando essa alma surge, estão cerca de 3 anos à espera que a nova família a venha buscar.
E depois temos os casos dos recém-nascidos que são abandonados dentro de sacos de plástico, deixados em jardins públicos ou atirados ao rio, com a probabilidade mínima de serem encontrados com vida. Isso não será uma forma de aborto?
Acho que fazer ou não um aborto vai da consciência de cada um; acho que não deve ser feito a pedido sem antes aconselhar a mulher/rapariga, tentar perceber as suas razões mas se essa for a decisão dela, ela deve poder tomá-la, sem se sujeitar a ter de o fazer num vão de escada qualquer, por uma pessoa que pode perceber tanto de medicina como eu de motores de automóveis.
Se o "Sim" ganhar, o aborto não vai ser obrigatório, os apoiantes do "Não" podem continuar a optar por não o fazer, mas ao menos as mulheres que optarem por fazê-lo vão ter alguma hipótese de o fazerem com o mínimo de condições. E desenganem-se aqueles que pensam que fazer um aborto é como ir arrancar um dente: custa mas tem que ser. Quando estava a estudar em Aveiro, numa das nossas famosas "Noites do lar" escolhemos como tema o aborto (penso que foi em 1996 ou 1997), só para chatear as freiras. O convidado dessa noite foi um padre que tinha um programa de rádio, penso que foi o Frei Bento Domingues, mas não tenho a certeza. Uma das minhas colegas perguntou qual era a posição dele em relação ao aborto. A resposta dele foi simples: ai de quem se referisse como uma criminosa a uma mulher que tenha feito um aborto. Dizia ele que tinha paroquianas que o tinha feito e que lhe tinham contado, em confissão. E, dizia ele, "não imaginam a dor e sofrimento que transpareciam dos olhos daquelas mulheres. Elas já são suficientemente castigadas, não precisam de mais.". Lindo!
Outra coisa, os apoiantes do "Não" dizem que, em Portugal, nenhuma mulher foi condenada por ter feito um aborto. Pois não, mas sentaram-se no banco dos réus. Foram julgadas. Foram levadas a tribunal. Infelizmente, já me sentei no banco dos réus (mas não sou uma criminosa!) e não é uma sensação agradável. Não fui julgada, foi "apenas" um debate instrutório, mas acreditem que não é nada agradável. Não acho justo que uma mulher que já sofre com toda a carga psicológica de quem fez um aborto, tenha que passar pela humilhação de se sentar no banco dos réus.
Mas atenção, digo não, completamente NÃO, ao aborto recorrente. Há mulheres que o fazem, como se fosse um método contraceptivo. Não é e é uma prática que pode levar à morte ou à infertilidade da mulher, por isso deve ser uma decisão tomada em consciência.
Por tudo isto, sinto que estou balançada mas como sou a favor da liberdade de escolha, acho que sabem qual será o meu voto.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Natal, Natal, Natal, Natal... e Ano Novo!

Pois é, já se passaram as Festas... É sempre uma época de grande alegria para a terrinha, vê-se gente que já não se via há que tempos, aparecem sempre festas e jantaradas, é o tal "banho de gente" que eu esperava, depois do Imago.
Houve festa da nossa (do Fundão) associação cultural A23; estava lá toda a gente (até parecia uma daquelas festas VIP), foi muito boa, a festa.
Já a Passagem de Ano... digamos que a nossa Câmara Municipal não esteve muito bem. Era quase meia-noite, o povo fundanense acorre em magotes ao Pavilhão Multiusos para ver o fogo de artifício, o INEM estava a postos com as habituais ambulâncias. Tudo à espera, será que já é meia noite, e de repente ouvem-se barulhos de foguetes lá ao longe. Sim, lá ao longe, na Aldeia de Joanes, no Alcaide, na Covilhã, em todo o lado menos no Pavilhão Multiusos...
Este foi o nosso fogo de artifício (aquele pontinho de luz é a Lua, não é um foguete solitário, antes fosse), um fogo de artifício capaz de competir com o de Sidney ou do Funchal... Miséria!
Mas mesmo sem fogo de artifício, foi uma passagem de Ano porreira, com camarão e tudo!
Agora tenho um Ano Novo pela frente, prontinho a estrear, como se fosse um caderno com as folhas em branco, que daqui a uns tempos vão estar cheias de rabiscos e letras e desenhos. Nós é que preenchemos as folhas do nosso Novo Ano... será? Será que somos apenas nós que empunhamos a caneta com que vamos escrevendo as páginas da nossa vida? (esta altura é sempre muito reflexiva para mim) Talvez esteja a arranjar desculpas para as coisas que nem sempre correm como eu queria, apesar de eu tentar que corram. E lá entra o meu maldito karma, é sempre o meu bode expiatório para explicar determinadas coisas que me acontecem e que eu não consigo explicar. Será que estou a tentar "sacudir a àgua do capote"? Hum, acho que não. Normalmente assumo as consequências dos meus actos e sei ver quando uma coisa acontece por minha culpa - o que não é o caso, neste caso. Quando as coisas falham por nossa culpa, sempre podemos bater no peito, mea culpa, e tentar não fazer asneira na próxima vez. Mas e quando fazemos tudo bem, ou pelo menos não fazemos mal, e mesmo assim as coisas nos saem ao contrário? Pronto, acontece e tal, para a próxima corre melhor. Mas e quando estas situações já são recorrentes e fogem da nossa responsabilidade e controlo? Como é que podemos fugir das garras maléficas de um mau karma? Provavelmente na próxima encarnação, mas, e se não houver próxima encarnação? Se calhar isto não é mau karma, é mesmo má sorte.
E como se costuma dizer, "que o melhor de 2006 seja o pior de 2007". Esperemos que sim!

sábado, novembro 25, 2006

O Adamastor


Estou a escrever este post deitada na minha cama! Altamente espectacular! Viva o wireless!
Hoje choveu que Deus mandou; parecia uma versão moderna do Dilúvio. Não que eu saiba como foi o Dilúvio original, ainda não andava por cá nessa altura, ou se andava, não me lembro... Bem, de qualquer maneira, choveu muito. E "ventou"(será que esta palavra existe?) também.
Eu gosto dos dias de chuva, principalmente quando não tenho que sair de casa. Gosto de ouvir a chuva cair no telhado, as gotas de água a bater nos vidros da janela e a escorrer lentamente, deixando um carreiro, como se fossem lágrimas. Só não gosto do vento. Além de me irritar, assusta-me, o barulho do vento a passar nas frinchas das janelas e das portas, parece que anda um monstro lá fora, a rondar, a espreitar, assim tipo o Adamastor n'"A Mensagem" de Fernando Pessoa:

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!» "

Nunca gostei muito de Fernando Pessoa mas lembro-me sempre do "Mar Português" quando o vento sopra com força, talvez porque tive uma professora de Português no liceu que tinha o dom da palavra, e que descrevia tão bem as situações que nós quase conseguíamos visualizá-las.
Quando está vento, imagino o Mostrengo, leia-se Adamastor, com o sobrolho franzido, a rondar a minha casa, dando toques nas janelas e nas portas, abanando as àrvores. E sinto aquele "medo" bom, que me faz puxar o edredon até às orelhas e fechar os olhos com força, dando graças a Deus por ter uma casa e não estar a dormir na rua.
Começou a chover outra vez. O Adamastor deve estar a chegar...

domingo, outubro 29, 2006

O passado, este país distante...



Há um escritor, cujo nome agora não me lembro, que se refere ao passado como um "país distante". Eu digo mais, é um país distante, onde as pessoas são estranhas, apesar de vagamente familiares.
Nestes dias tenho andado especialmente saudosista, talvez influência do tempo ou do avanço da idade, não sei... Por isso, resolvi ir buscar os meus cadernos onde durante anos escrevi os meus pensamentos e as minhas histórias. E foi uma viagem estranha, diria mesmo perturbante. Fui eu que escrevi tudo aquilo, fui eu que vivi aquelas situações, e ao ler tudo aquilo acabei por reviver algumas delas; mas foi estranho, porque não me reconheci naquela adolescente. Lembro-me de algumas das situações que estavam ali relatadas, tenho a chamada "memória de elefante", inclusive da roupa que usava ou da data em que aconteceu determinada situação. Mas não me reconheço nas reacções daquela miúda que eu era.
Quando fui buscar a caixa onde guardo esses cadernos, ia decidida a lê-los de fio a pavio; no entanto, ao iniciar a leitura, comecei a ficar perturbada. E ainda mais perturbada fiquei quando me apercebi que estava a ficar perturbada ao recordar acontecimentos que datavam de há mais de 10 anos! Chego à conclusão de que o passado deve ficar onde pertence, no passado. Não que me arrependa de alguma coisa, "arrepende-te do que fizeste, não do que não fizeste", apenas são coisas que não fazem sentido no presente, pertencem, claro está, ao passado. No entanto, ao mesmo tempo foi bom recordar isso. Sentir no peito quase o mesmo que senti quando escrevi tudo aquilo. Sentir que houve qualquer coisa que mexeu muito comigo, que me fez rir e que me fez chorar, chorar muito.
Talvez neste momento me sinta um pouco vazia, porque não há nada que me faça rir ou chorar com a mesma intensidade, mas ao menos já houve. O que não é nada mau, para prémio de consolação...

domingo, outubro 22, 2006

E chove e chove e chove... E o Imago já lá vai...


Já voltou a chuva, ou melhor, já veio a chuva; tendo em conta o pouco que choveu o ano passado, penso que será mais correcto dizer que "a chuva veio" em vez de "a chuva voltou". Bem, adiante...
Está um daqueles Domingos feitos exclusivamente para ficar em casa a ver filmes. O barulho da chuva a bater no telhado e nas caleiras é quase hipnótico, dá vontade de não sair de casa.
O Imago já lá vai, foi um pretexto para inaugurar a Moagem, a meu ver um pretexto um pouco forçado, mas enfim... O espaço está engraçado e tal, mas para o Imago a que nós, fundanenses, estamos habituados é inadequado. Aquelas escadas de metal são um perigo, principalmente quando estão regadas de cerveja; estava a ver a altura em que iriam ceder com o peso de tanta gente a subir e a descer.
Depois aquela cena elitista chamada "guest list"; por amor de Deus, é um festival de cinema e música, não é uma festa do jet-set. Não?
De qualquer maneira, foi bom o Imago ter sido realizado naquele espaço pois permitiu a ascensão de outro espaço que estava esquecido na memória das gentes fundanenses (pelo menos na minha estava): a tasca da estação! Um espaço remodelado e bastante agradável, onde o pessoal que não constava da famosa "guest list" se reunia para beber umas minis e comer umas bifanas, bem boas por sinal. Um espaço imortalizado pelos Jerónimo e os Cromagnon no seu êxito "A Tasca do Sr. Zé da Estação" mas que não era um ponto de encontro muito habitual do pessoal mais jovem. Gostei da tasca.
Não assisti a uma única curta ou concerto, fui pelo convívio,pelo banho de gente nova; gosto de cinema mas confesso que não sou uma cinéfila erudita, gosto dos filmes comerciais que saem em DVD, não sei apreciar o cinema como arte, mea culpa.
Agora resta esperar pelas férias do Natal para ter mais um banho de gente, desta vez de gente amiga. Porque nesta terrinha, fora destes acontecimentos, não se vê ninguém. Será a tão falada desertificação? Talvez, mas desde que, de tempos a tempos, eles voltem, está tudo bem.

sábado, setembro 16, 2006

Mééé mééé, os Chocalhos estão de volta!


Ah pois é, mais uma vez a chocalhada está nas ruas. É o evento mais esperado do ano, juntamente com o Imago e as férias do Natal. Encontra-se toda a gente (mesmo aquela que não queremos encontrar), bebe-se ginja, come-se a primeira filhó do ano, pelo menos é o meu ritual!
É bom andar por aquelas ruas cheias de gente bem disposta, quer seja por feitio ou por acção da ginja e/ou outros adjuvantes do bom humor; ver aquelas casas reconstruídas mas ainda com a alma das gentes da Beira, uma cara nova mas um coração "velho", ainda com a traça e as memórias originais.
Transformam-se garagens e lojas em pequenas tascas onde se vende de tudo, desde argolas e ginja a bordados e fios e brincos e t-shirts. Mas acima de tudo, sente-se nas ruas a boa disposição, a alegria, quem sabe o orgulho de ser beirão.
É o terceiro ano que vou aos Chocalhos, e manda a tradição que no Sábado haja lá jantarada, com a morcela e a chouriça e a entremeada grelhadas. Hum, adivinha-se noite looooonga...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Remember, remember, the 11th of September...


Faz hoje 5 anos que ocorreram os atentados ao WTC.
Neste dia é quase impossível não deixar aqui uma pequena homenagem a todos aqueles que estavam no local errado à hora errada. Que sorte ser portuguesa e estar a trabalhar em Portugal nesse dia fatídico, há 5 anos atrás.
Ontem a televisão pública "bombardeou-nos" com documentários sobre os atentados, testemunhos de sobreviventes, teorias da conspiração. Para mim, foram 2 horas "non-stop" que me horrorizaram e me fizeram pensar (mais uma vez) que realmente não fui feita para viver neste mundo...
No primeiro documentário ouviam-se testemunhos de pessoas que estavam nas Torres naquele dia, pessoas que conseguiram fugir dos atentados mas que não conseguiram fugir dos fantasmas. Impressionou-me. Uma sobrevivente contava que lavou as calças que usava nesse dia durante anos porque sentia que isso a ajudava a livrar-se do mal, dos fantasmas, dos traumas. São artefactos que os ajudam a manter a sanidade. Mais uma vez passaram as imagens de pessoas desesperadas, que ao verem-se sem saída, atiraram-se das janelas, escolhendo uma morte certa em vez de uma morte certa. Imagino o desespero daquelas pessoas; ter que escolher entre morrer asfixiado ou queimado, ou morrer esborrachado no chão. Qual delas a melhor?
O segundo documentário era uma reconstituição do que se terá passado a bordo do vôo 11 da American Airlines, o primeiro a embater nas Torres. Foi atrofiante! Senti o meu coração bater mais forte; eu já gosto pouco de andar de avião, imaginar-me dentro daquele avião só aumentou a minha fobia. O desespero das hospedeiras, que apesar do medo que sentiam ainda conseguiram acalmar os passageiros. O avião abanava por todo o lado, ao ser pilotados por 5 fanáticos de uma seita dos Islão, os Salafitas, que podiam perceber de sequestros mas não sabiam nada sobre como pilotar um avião. Ouvir as chamadas originais das hospedeiras, a voz de pânico com a certeza que iam morrer foi horrível!
O terceiro documentário falava da teoria da conspiração que se gerou em torno dos atentados. A ausência de destroços do avião que embateu no Pentágono. A catadupa de viagens de políticos dos EUA que estavam marcadas para 11 de Setembro de 2001 e que foram canceladas. Os avisos que um mayor de uma cidade qualquer recebeu para não viajar nesse dia. As observações de que a queda das Torres parecia uma implosão controlada. Isto ainda é mais horrível. Pensar que havia pessoas que podiam estar avisadas e que nada fizeram. Para quê? Com que intuito? Para favorecer quem?
Não sei se acredito nessas teorias da conspiração, apenas acredito que não há coincidências.
E quando penso no 11/09 vêm-me à memória as imagens daqueles desgraçados que caíam ao longo das Torres, esbracejando, como se isso os impedisse de se esborracharem no chão. As imagens dos bombeiros que perderam a própria vida a tentar salvar outras vidas. Isso é que é altruísmo.

segunda-feira, junho 26, 2006

Parabéns pela "Castro"!


Uma palavra para um jovem actor que se aventurou pelas artes da encenação. Tive o previlégio de assisitir à estreia da peça, que foi o culminar de uma dura luta para a trazer à luz do dia. Gostei porque é uma peça dura, porque a história de Inês de Castro não é só uma história de amor, é também uma história de ódio, de corrupção dos valores e da moral, um lado da mais famosa história de amor da nossa História que pouca gente viu. E agora, graças a ti, vê a luz do dia (e do palco!). Parabéns pela persistência, por não desisitires, por não teres baixado os braços. Que venham mais, cá estaremos para apoiar! C'um camandro!